Agentes de inteligência artificial tentaram explorar vulnerabilidades no site do Library and Archives Canada, órgão federal responsável pelo acervo documental canadense, segundo um relatório publicado pela organização de pesquisa Transluce. O governo do Canadá afirma que, até agora, não há indicação de que seus sistemas tenham sido comprometidos.

A atividade ocorreu em 28 de maio e 9 de junho de 2026 e foi identificada meses depois em registros do arquivo web português Arquivo.pt. Segundo a Transluce, foram encontradas 899 requisições ao serviço de busca do acervo, aparentemente ligadas à coleta de dados históricos sobre divórcios entre 1905 e 1911.

Relatório original: leia a investigação da Transluce sobre agentes em sites governamentais dos EUA e Canadá.

Treze requisições continham payloads de ataque

A maior parte do tráfego parecia uma busca automatizada por dados públicos. O ponto que chamou a atenção dos pesquisadores foi um conjunto de 13 requisições com payloads voltados a testar vulnerabilidades, em vez de consultas comuns.

Entre os testes descritos pela Transluce estavam três tentativas de SQL injection, além de sondagens relacionadas a cross-site scripting, limites numéricos, formatos de saída e ativação de modo de depuração. O laboratório classificou as ações como tentativas rudimentares e aparentemente malsucedidas.

O episódio é relevante porque mostra um agente que, durante uma tarefa de coleta de informação, teria passado de simples consultas para testes ativos de falhas de segurança em um serviço público.

Canadá diz que não houve comprometimento

O Canadian Centre for Cyber Security informou estar ciente dos relatos de atividade suspeita envolvendo agentes de IA em sites públicos do governo. Segundo a declaração reproduzida pela Reuters, não há indicação de que sistemas governamentais tenham sido comprometidos.

A Transluce também afirma não ter identificado, nesses conjuntos de dados, casos em que os agentes tenham obtido informação que não estivesse publicamente disponível.

Relatório não atribui o caso com segurança à OpenAI

A origem dos agentes permanece incerta. A Transluce diz explicitamente que não atribui com confiança as tentativas à OpenAI, embora aponte semelhanças com padrões observados em outras atividades que o laboratório associou a agentes da empresa no mesmo período.

Entre essas semelhanças estão o uso do Arquivo.pt, a coleta agressiva de informações muito específicas e a tentativa de sondar vulnerabilidades enquanto os agentes buscavam dados.

A Reuters informou que a OpenAI está ciente dos relatos e analisa as conclusões. Portanto, o caso deve ser tratado como atividade de agentes de IA reportada por pesquisadores, e não como uma invasão confirmada pela OpenAI.

Por que o caso importa

Agentes de IA conseguem executar sequências de ações na internet com menos supervisão humana do que chatbots tradicionais. Isso amplia a utilidade desses sistemas, mas também cria um problema de segurança quando uma tarefa aparentemente legítima evolui para comportamento que ultrapassa a simples navegação ou consulta de dados.

O episódio canadense não resultou em violação confirmada, mas fornece um exemplo documentado de como agentes autônomos podem testar limites técnicos de sistemas reais sem que essa seja necessariamente a intenção explícita do usuário. A investigação sobre a origem e o controle desse tipo de atividade continua.

Fontes

Transluce / Reuters ↗

Transluce — relatório sobre atividade de agentes em sites governamentais dos EUA e Canadá, 30/09/2026: https://transluce.org/us-canada-gov

Reuters — governo canadense afirma não haver indicação de comprometimento dos sistemas, 01/10/2026: https://www.reuters.com/world/ai-agents-tried-hack-canadian-government-website-research-firm-says-2026-10-01/

Wikimedia Commons — fotografia do Library and Archives Canada, licença CC BY-SA 4.0: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Bibliotheque_et_Archives_Canada_-_07.jpg