Grandes empresas de tecnologia estão recorrendo cada vez mais a garantias financeiras para sustentar a expansão de data centers e a compra de chips de inteligência artificial. Segundo análise publicada pelo Financial Times em 20 de setembro, o valor dessas garantias pode chegar a US$ 300 bilhões.

O mecanismo ganhou importância porque permite que parte do financiamento seja levantada por veículos ou parceiros financeiros, em vez de aparecer como dívida tradicional da empresa que fornece a garantia. Isso não significa que os compromissos estejam escondidos ou sejam ilegais: eles podem aparecer nas notas das demonstrações financeiras e seu tratamento contábil depende da estrutura e da probabilidade de perda.

Análise: Financial Times — garantias e exposição financeira no boom da IA

Documento corporativo: Broadcom — Form 10-Q de setembro de 2026

Atualização: Broadcom pode financiar até US$ 42 bilhões para a Anthropic

Um novo documento tornou mais concreto o tamanho dessas estruturas. Segundo a Reuters, o prospecto de IPO da Anthropic mostra que a Broadcom concordou em disponibilizar até US$ 42 bilhões em financiamento para gastos de infraestrutura da empresa de IA.

A linha pode financiar aproximadamente um terço do compromisso de US$ 125,2 bilhões assumido pela Anthropic para arrendar, durante cinco anos, capacidade computacional baseada em TPUs. Google e Broadcom colaboram no desenvolvimento desses chips, e a Anthropic já havia anunciado uma expansão dessa parceria para receber capacidade de próxima geração a partir de 2027.

O acordo também prevê a possibilidade de instrumentos de dívida serem convertidos em ações da Anthropic. No próprio prospecto, a companhia alerta que o papel da Broadcom simultaneamente como fornecedora de hardware e parceira financeira cria potenciais conflitos de interesse relacionados ao preço e ao acesso à infraestrutura necessária para seus modelos.

Fonte primária da apuração: Reuters — Broadcom pode emprestar até US$ 42 bilhões à Anthropic

Como funcionam as garantias de valor residual

Uma das estruturas usadas é a residual value guarantee (RVG). Em linhas gerais, uma empresa garante ao financiador um valor mínimo para determinados ativos no futuro. Se chips, servidores ou outra infraestrutura financiada valerem menos do que o piso acordado em determinadas condições, a garantia pode ser acionada para cobrir parte da diferença.

A Broadcom descreveu esse modelo em seu relatório trimestral mais recente. A companhia afirma que parceiros financeiros capitalizam ativos de infraestrutura de IA e que, quando necessário, ela pode fornecer garantias de valor residual. A empresa classifica essas garantias como passivos contingentes e diz considerar baixa a probabilidade de acionamento.

No mesmo documento, a Broadcom informa que lançou em junho uma plataforma de financiamento de infraestrutura de IA com uma primeira tranche de US$ 35 bilhões, destinada à implantação de mais de 1 gigawatt de capacidade computacional para um cliente.

O número de US$ 300 bilhões exige contexto

O valor destacado pelo Financial Times se refere a garantias associadas a diferentes estruturas de financiamento do setor. Ele não deve ser confundido com toda a gama de compromissos futuros das Big Techs.

Uma análise anterior do Morgan Stanley, reproduzida pela Bloomberg Law, estimou em mais de US$ 3,1 trilhões o conjunto de garantias, arrendamentos e outras formas de apoio financeiro ou compromissos ligados à infraestrutura de IA entre cinco grandes provedores de nuvem, Nvidia e Broadcom. Essa categoria é muito mais ampla que as garantias de valor residual isoladamente.

A diferença importa: contratos futuros de compra, leases ainda não iniciados e garantias contingentes possuem riscos e tratamentos contábeis diferentes. Somá-los e chamar tudo simplesmente de “dívida escondida” distorce a natureza das obrigações.

Por que o modelo cresceu com a IA

Construir infraestrutura para modelos de IA exige desembolsos gigantescos antes que toda a capacidade comece a gerar receita. Fabricantes de chips, laboratórios de IA, empresas de nuvem, fundos e operadores de data centers passaram a dividir esse custo por meio de veículos especializados e financiamento externo.

Para os credores, uma garantia de uma grande empresa reduz parte do risco. Para a companhia que dá o respaldo, o modelo permite acelerar vendas e projetos sem necessariamente assumir toda a dívida diretamente desde o primeiro dia.

O risco aparece se o setor construir capacidade demais ou se os ativos perderem valor mais rápido que o previsto. Nesse cenário, garantias que hoje parecem remotas podem se transformar em obrigações efetivas. Por isso, agências e analistas de crédito acompanham essas estruturas mesmo quando elas não aparecem como dívida convencional no balanço.

O crescimento desse tipo de financiamento mostra que a corrida da IA já não é apenas uma disputa por modelos melhores: a engenharia financeira necessária para pagar chips, energia e data centers tornou-se parte central da competição tecnológica.

Fontes

Financial Times / Broadcom / Reuters / Bloomberg Law ↗

https://www.ft.com/content/7f11afae-c4e3-4054-a65b-873f3647f563, https://investors.broadcom.com/static-files/96641754-401f-4090-a4ab-210728c83a28, https://www.reuters.com/business/broadcom-lend-anthropic-up-42-billion-lease-its-chips-filing-says-2026-10-01/, https://news.bloomberglaw.com/banking-law/ai-related-off-balance-sheet-commitments-top-3-trillion-ms