A Patagônia argentina começa a aparecer no radar de empresas de tecnologia e energia que procuram áreas capazes de receber megadata centers voltados à crescente demanda por inteligência artificial.

A região combina três características valorizadas por esse tipo de infraestrutura: temperaturas baixas, grandes extensões de terra e disponibilidade de fontes de energia. O governo argentino também tenta atrair investimentos com regimes de incentivo e maior previsibilidade regulatória.

Uma reportagem da Reuters publicada nesta segunda-feira (7) mostra, porém, que transformar esse potencial em um novo polo digital latino-americano dependerá de resolver gargalos de transmissão elétrica, conectividade de fibra óptica, financiamento e estabilidade de longo prazo.

Frio ajuda a reduzir uma conta enorme

Data centers de grande escala consomem energia não apenas para alimentar processadores, mas também para resfriar milhares de servidores funcionando continuamente.

Por isso, ambientes frios podem reduzir parte do esforço necessário para controle térmico. A Patagônia também oferece vastas áreas pouco densamente ocupadas, característica útil para empreendimentos que exigem grandes terrenos e infraestrutura elétrica dedicada.

A região dispõe ainda de recursos renováveis, especialmente vento, e fica próxima de áreas estratégicas de produção de gás, incluindo a formação de Vaca Muerta.

Essa combinação torna possível imaginar projetos que misturem energia renovável, geração térmica e sistemas de armazenamento para sustentar cargas computacionais de alta potência.

Pampa Energía estuda projeto de até 500 MW

A argentina Pampa Energía estuda um local na província de Neuquén que poderia receber um data center com capacidade de até 500 megawatts, segundo a Reuters.

Um empreendimento desse tamanho estaria muito acima de data centers corporativos tradicionais e se aproximaria da escala de infraestrutura desenhada para treinamento e operação de grandes modelos de IA.

Outras empresas, como Green Capital, FlexDomes e Cloud2Ground, também aparecem entre grupos que avaliam oportunidades na região.

Nem todos esses projetos estão em fase de construção. Parte ainda está em estudos, negociação de energia ou definição de financiamento.

OpenAI também aparece no mapa argentino

A reportagem cita o projeto anunciado anteriormente envolvendo OpenAI e Sur Energy, que prevê a possibilidade de um complexo de infraestrutura de IA na Argentina com investimento de até US$ 25 bilhões.

O valor representa o teto anunciado para o projeto e não significa que todo o montante já tenha sido contratado ou desembolsado.

A presença de iniciativas desse porte ajuda a explicar por que governos provinciais e empresas de energia passaram a enxergar data centers como uma nova frente de desenvolvimento econômico.

Incentivos tentam compensar o risco

A Argentina criou o Regime de Incentivo para Grandes Investimentos (RIGI) para oferecer benefícios tributários e maior estabilidade regulatória a projetos de longo prazo.

O país também discute mecanismos adicionais, citados como um possível “Super RIGI”, para ampliar a atratividade de investimentos intensivos em capital.

A estabilidade das regras importa porque um megadata center pode levar anos para ser planejado, conectado à rede e ampliado. Empresas precisam estimar custos de energia, impostos e acesso a moeda estrangeira por horizontes muito maiores que um ciclo econômico curto.

Segundo a Reuters, alguns investidores ainda acompanham com cautela o cenário político argentino e as eleições de 2027 antes de comprometer valores maiores.

A infraestrutura digital ainda é o principal gargalo

Ter energia barata e clima frio não basta.

Data centers precisam de múltiplas rotas de fibra óptica, conexão de baixa latência, redundância elétrica, água ou sistemas alternativos de resfriamento e acesso logístico para equipamentos.

Nesse ponto, a Patagônia ainda está atrás de polos digitais mais consolidados da América Latina.

Argentina também possui menos infraestrutura de grande escala do que mercados regionais como Chile e, em determinados segmentos, Uruguai e Brasil.

Construir um novo polo exigiria investimentos paralelos em telecomunicações e transmissão de energia, não apenas nos edifícios que abrigam servidores.

IA está mudando a geografia dos data centers

A corrida por inteligência artificial aumentou drasticamente a quantidade de energia necessária para novas instalações.

Empresas que antes procuravam principalmente proximidade de grandes centros urbanos agora também avaliam regiões com energia abundante, espaço e condições naturais favoráveis ao resfriamento.

Isso explica o interesse por locais como Patagônia, países nórdicos e regiões próximas de grandes fontes de geração elétrica.

A Patagônia argentina ainda não é um grande polo global de data centers. Mas o interesse crescente mostra que a expansão da IA está redesenhando o mapa da infraestrutura digital — e fazendo regiões historicamente distantes dos centros de tecnologia disputarem investimentos de dezenas de bilhões de dólares.

Fontes

Reuters ↗

https://www.reuters.com/business/energy/tech-companies-look-argentinas-windswept-patagonia-build-massive-data-centers-2026-09-07/