Luiz Inácio Lula da Silva, nascido em 27 de outubro de 1945, em Garanhuns (PE), é metalúrgico de formação profissional, ex-líder sindical, fundador do Partido dos Trabalhadores e presidente da República eleito em 2002, 2006 e 2022.
Em 2026, aos 80 anos, disputa a reeleição pelo PT com Geraldo Alckmin novamente como vice. Se vencer, chegará a um quarto mandato presidencial — algo sem precedente na história republicana brasileira por meio de eleições diretas.
A trajetória de Lula atravessa quase meio século da política brasileira: greves do ABC durante a ditadura, fundação do PT, Assembleia Constituinte, três derrotas presidenciais antes da primeira vitória, dois governos de forte expansão social, escândalos de corrupção, prisão na Lava Jato, anulação das condenações, retorno eleitoral e um terceiro mandato marcado por reconstrução de políticas públicas e nova polarização com a família Bolsonaro.
Quem é Lula
Lula nasceu em uma família pobre no interior de Pernambuco e migrou ainda criança com a mãe e irmãos para o estado de São Paulo. A família viveu primeiro no litoral e depois na capital.
Fez curso profissionalizante no Senai e trabalhou como metalúrgico. Na indústria, perdeu parte de um dedo em acidente de trabalho — episódio frequentemente citado em sua biografia e na construção de sua identidade como trabalhador industrial.
No fim dos anos 1960 e durante a década de 1970, aproximou-se do movimento sindical. Acabou chegando à presidência do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, tornando-se uma das principais lideranças das grandes greves do ABC paulista no final da ditadura militar.
Das greves do ABC à criação do PT
As paralisações de metalúrgicos em 1978, 1979 e 1980 deram projeção nacional a Lula. O movimento reivindicava melhores salários e maior autonomia sindical em um período de restrição política.
Em 1980, Lula participou da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT), que reuniu sindicalistas, movimentos sociais, setores da Igreja Católica, intelectuais e grupos de esquerda.
Também participou da campanha das Diretas Já e, em 1986, foi eleito deputado federal por São Paulo. Exerceu mandato durante a Assembleia Nacional Constituinte que elaborou a Constituição de 1988.
Lula deixou de buscar carreira parlamentar tradicional e concentrou sua trajetória em disputas nacionais.
Três derrotas antes da primeira vitória presidencial
Lula concorreu à Presidência em 1989, chegando ao segundo turno contra Fernando Collor. Foi derrotado.
Tentou novamente em 1994 e 1998, nas duas eleições vencidas por Fernando Henrique Cardoso.
A vitória só veio na quarta candidatura, em 2002. Naquele ano, Lula moderou parte do discurso econômico histórico do PT, divulgou a “Carta ao Povo Brasileiro” e buscou reduzir temores de ruptura com contratos e estabilidade monetária.
Foi eleito presidente e assumiu em janeiro de 2003.
Os primeiros governos Lula
Durante os mandatos de 2003 a 2010, o Brasil combinou crescimento econômico, forte demanda internacional por commodities, aumento real do salário mínimo, expansão do emprego formal, crédito e programas de transferência de renda.
O Bolsa Família, criado em 2003 a partir da unificação e ampliação de programas sociais anteriores, tornou-se uma das marcas do governo. Houve também expansão das universidades e institutos federais, políticas de acesso ao ensino superior e aumento de investimentos públicos em diferentes períodos.
A melhora de indicadores de renda e pobreza ajudou Lula a terminar o segundo mandato com alta popularidade.
Os governos também foram marcados por grandes escândalos de corrupção. O Mensalão, revelado em 2005, envolveu dirigentes partidários e integrantes da base governista e terminou com condenações no STF. Lula não foi réu naquele processo, mas a crise atingiu diretamente o núcleo político de seu governo.
Dilma, Lava Jato e a prisão de Lula
Depois de dois mandatos, Lula apoiou Dilma Rousseff, eleita em 2010 e reeleita em 2014. O PT permaneceu no Planalto até o impeachment de Dilma em 2016.
Nesse período, a Operação Lava Jato avançou sobre esquemas de corrupção envolvendo Petrobras, grandes empreiteiras, partidos e agentes públicos. Lula foi investigado e acabou condenado nos casos do tríplex do Guarujá e do sítio de Atibaia.
Em 2018, começou a cumprir pena e ficou preso por 580 dias. A prisão impediu sua candidatura presidencial naquele ano depois que a Justiça Eleitoral aplicou a Lei da Ficha Limpa.
O que aconteceu com as condenações
Em 2021, o Supremo Tribunal Federal confirmou decisão que anulou as condenações de Lula nos processos conduzidos pela 13ª Vara Federal de Curitiba. O fundamento foi que aquela vara não tinha competência territorial e jurídica para julgar os casos específicos atribuídos ao ex-presidente.
Em decisão separada, o STF também reconheceu a suspeição de Sergio Moro na condução do processo do tríplex, entendendo que o então juiz não atuou com a imparcialidade exigida.
Essas decisões restauraram os direitos políticos de Lula e invalidaram os julgamentos realizados naquele foro.
É importante descrever o resultado corretamente: as condenações foram anuladas por questões de competência e, no caso do tríplex, também houve reconhecimento da parcialidade de Moro. Isso não equivale a uma sentença posterior que tenha reexaminado todas as provas e declarado Lula inocente no mérito de cada acusação.
Com o passar do tempo, os processos não voltaram a produzir condenações válidas e Lula pôde disputar eleições novamente.
O retorno ao Planalto em 2022
Lula voltou à disputa presidencial em 2022 formando uma coalizão mais ampla do que as alianças tradicionais do PT. O símbolo principal dessa estratégia foi a escolha de Geraldo Alckmin, antigo adversário do PSDB, como vice.
No segundo turno, derrotou Jair Bolsonaro por margem estreita e assumiu seu terceiro mandato em janeiro de 2023.
O novo governo retomou e reformulou programas sociais e de investimento, relançou o Minha Casa, Minha Vida e o PAC, adotou um novo arcabouço fiscal e buscou reconstruir relações internacionais e políticas ambientais alteradas no governo anterior.
Ao mesmo tempo, enfrentou dificuldades com equilíbrio das contas públicas, relação com um Congresso fragmentado, crescimento das emendas parlamentares e forte polarização política.
A candidatura de 2026
Lula decidiu buscar a reeleição mantendo Alckmin na vice. A campanha apresenta o quarto mandato como continuidade do projeto iniciado em 2023 e contrapõe sua experiência de governo à candidatura de Flávio Bolsonaro.
Ao contrário de 2022, quando enfrentava Jair Bolsonaro diretamente, Lula disputa agora contra o filho mais velho do ex-presidente e outros candidatos de centro e direita.
As pesquisas de setembro mostram uma corrida apertada. Na rodada Datafolha feita entre 8 e 10 de setembro, Lula apareceu com 39% no primeiro turno e Flávio com 35%; no segundo turno, 46% a 44%, diferença dentro da margem de erro. Veja Datafolha: Lula tem 39%, Flávio 35% e rejeição de 46% para ambos.
Pesquisas são fotografias do momento e não previsões do resultado final, mas o cenário ajuda a entender por que a campanha é fortemente organizada em torno da comparação entre lulismo e bolsonarismo.
O que Lula defende em 2026
O programa de Lula combina manutenção de programas sociais e investimentos públicos com a promessa de preservar o novo regime fiscal.
A campanha defende continuidade do PAC, investimentos em infraestrutura e indústria, expansão do Minha Casa, Minha Vida, políticas de renda, educação profissional e superior e transição ecológica.
Na área trabalhista, Lula apoia o fim da escala 6x1 como horizonte de mudança nas relações de trabalho, embora a definição de jornada dependa de negociação legislativa e do desenho final aprovado pelo Congresso.
Na segurança pública, defende maior coordenação federal e a criação de uma estrutura nacional mais robusta, incluindo proposta de Ministério da Segurança Pública, sem retirar dos estados suas competências constitucionais.
STF, Judiciário e relação entre os Poderes
Em 2026, Lula também passou a defender uma reforma do Judiciário para o mandato seguinte, em meio a uma crise institucional envolvendo o STF e o caso Banco Master. O AVATIX News detalhou o tema em Lula defende reforma do Judiciário a partir de 2027 em meio à crise no STF.
A relação entre Executivo, Congresso e Supremo é um dos pontos mais delicados de qualquer eventual quarto governo. Lula governa com uma coalizão ampla e depende de partidos que não fazem parte da esquerda, ao mesmo tempo em que enfrenta pressão por mudanças nas regras de emendas parlamentares e por maior transparência no uso de recursos públicos.
Experiência também significa carregar todo o próprio passado
Nenhum candidato relevante de 2026 possui um histórico presidencial comparável ao de Lula. Isso é uma vantagem e uma vulnerabilidade.
Ele pode apontar resultados de três mandatos e décadas de experiência política. Seus adversários, por outro lado, podem cobrar diretamente crises fiscais, escândalos ocorridos em governos petistas, decisões de política externa, promessas não cumpridas e problemas atuais de serviços públicos.
Em entrevista durante a campanha, por exemplo, Lula foi pressionado sobre dívida dos Correios e fila do INSS; veja Lula é cobrado sobre dívida dos Correios e fila do INSS.
A própria longevidade transforma praticamente qualquer tema da eleição em uma comparação não apenas entre propostas, mas entre períodos em que Lula ou seus aliados já exerceram poder.
Afinal, quem é Lula?
Lula é ao mesmo tempo um dos políticos mais conhecidos do Brasil e um candidato cuja trajetória precisa ser dividida em fases muito diferentes.
Foi operário e líder sindical, ajudou a criar um partido que remodelou a esquerda brasileira, perdeu três eleições presidenciais, venceu três, deixou o poder com alta aprovação, viu seu partido atravessar impeachment e escândalos, foi condenado e preso, teve as condenações anuladas pelo STF e voltou ao Planalto depois de derrotar Jair Bolsonaro.
Em 2026, sua candidatura não depende de apresentar Lula ao eleitor. O desafio é outro: convencer uma população que já conhece seus governos, suas conquistas e suas crises de que mais um mandato ainda oferece algo novo — ou pelo menos preferível às alternativas na disputa.
Fontes
Agência Brasil / Folha de S.Paulo / STF / Presidência da República ↗
Agência Brasil — perfil e candidatura de Lula à reeleição em 2026: https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2026-08/lula-e-candidato-reeleicao-presidencia-da-republica
Folha de S.Paulo — candidatos à Presidência e propostas em 2026: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/08/veja-quem-sao-os-candidatos-a-presidencia-nas-eleicoes-de-2026.shtml
Presidência da República — biografia de Luiz Inácio Lula da Silva: https://www.gov.br/planalto/pt-br/conheca-a-presidencia/biografia-do-presidente
STF — decisões de 2021 sobre incompetência da 13ª Vara Federal de Curitiba nos processos de Lula e suspeição de Sergio Moro: https://portal.stf.jus.br/
Folha de S.Paulo — Datafolha de 11 de setembro de 2026: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/09/datafolha-lula-tem-39-e-flavio-bolsonaro-35-em-primeiro-turno.shtml
