A divulgação de documentos do caso Banco Master abriu duas discussões que frequentemente aparecem misturadas: uma sobre ideologia e outra sobre procedimento.

A primeira pergunta é política: o ministro André Mendonça estaria usando a relatoria para expor apenas Alexandre de Moraes e adversários do campo bolsonarista?

A segunda é jurídica e processual: Mendonça escolheu de forma seletiva quais documentos abrir, em que momento e com qual critério, produzindo uma visão incompleta do conjunto da investigação?

Os novos documentos sobre Dark Horse tornam a primeira acusação mais difícil de sustentar em sua forma mais simples. Mas eles não resolvem automaticamente a segunda.

Essa distinção é essencial para analisar o episódio sem transformar indícios em absolvição ou condenação política.

O fato que complica a tese de uma seleção puramente ideológica

Mendonça foi indicado ao STF por Jair Bolsonaro, e essa origem política ajuda a explicar por que seus atos no caso Master são observados com desconfiança por críticos do bolsonarismo.

Mas o conteúdo tornado público nos últimos dias atingiu diretamente Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência pelo PL e filho do ex-presidente que indicou Mendonça à Corte.

Documentos revelados em setembro mostram que o próprio Mendonça autorizou, em 22 de julho, a abertura de inquérito solicitado pela Polícia Federal para investigar Flávio no financiamento de Dark Horse, cinebiografia sobre Jair Bolsonaro.

A PF atribui ao candidato participação em pedidos de recursos a Daniel Vorcaro e apura suspeitas relacionadas à origem, movimentação e destino do dinheiro. Flávio nega irregularidades e afirma que buscou financiamento privado para o projeto.

O AVATIX News detalhou essa frente em Flávio é investigado no STF por financiamento de Dark Horse.

Isso importa porque uma tese de favorecimento ideológico absoluto teria de explicar por que a atuação do relator também permitiu uma investigação e a exposição pública de material politicamente danoso a um dos principais nomes do bolsonarismo na eleição de 2026.

Não foi apenas uma citação lateral

O prejuízo político não veio de uma menção periférica em um documento de centenas de páginas.

As informações divulgadas colocaram Flávio no centro de uma linha investigativa específica. Vieram a público relatos sobre pedidos de financiamento, valores milionários, repasses relacionados ao projeto e um plano de negócios que previa até US$ 100 milhões de bilheteria para o filme.

Mendonça também homologou a delação premiada de Antônio Carlos Freixo Júnior, apontado nas investigações como operador ligado a Vorcaro e associado a movimentações que alcançam o financiamento de Dark Horse.

Nada disso prova os crimes investigados. Mas, politicamente, o material é claramente inconveniente para Flávio e para aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Por isso, é impreciso resumir a atuação de Mendonça como uma operação em que somente Moraes e seus adversários foram expostos.

O conjunto aberto também alcança políticos de campos diferentes

A ampliação da publicidade reforça esse ponto.

Depois de uma primeira abertura de 15 procedimentos, Mendonça retirou o sigilo de 39 processos no STF. O material envolve empresários, autoridades e políticos de diferentes grupos, incluindo nomes como Flávio Bolsonaro, Jaques Wagner (PT-BA) e Ciro Nogueira (PP-PI).

Ao mesmo tempo, documentos sobre contratos do Banco Master, mensagens atribuídas a Vorcaro e relações envolvendo Alexandre de Moraes continuam no centro da crise institucional.

O fato de pessoas de campos opostos aparecerem nas investigações não prova neutralidade do relator. Mas enfraquece a narrativa mais simples de que a abertura teria sido desenhada exclusivamente para atingir um único lado.

A cronologia atualizada está em Mendonça amplia abertura do caso Master para 39 processos.

Então a acusação de seletividade caiu? Não exatamente

É aqui que a diferença entre seletividade ideológica e seletividade processual se torna importante.

A Procuradoria-Geral da República considerou a primeira divulgação de Mendonça insuficiente. Para a PGR, a abertura parcial poderia transmitir uma imagem equivocada de transparência porque partes relevantes do universo investigado continuavam inacessíveis.

O presidente do STF, Edson Fachin, deu prazo para que a publicidade fosse ampliada, preservando apenas diligências cujo sigilo fosse necessário para sua efetividade.

Moraes e outros ministros também questionaram a forma como os dados foram disponibilizados e o acesso ao material completo.

Essas críticas não dependem de provar que Mendonça protegeu Flávio. Elas podem existir mesmo se documentos prejudiciais ao bolsonarismo tiverem sido divulgados.

A questão passa a ser outra: o recorte inicial, a ordem e o momento da divulgação foram justificáveis por critérios jurídicos e investigativos?

A defesa de Mendonça

Mendonça rejeitou a ideia de que estivesse escondendo deliberadamente partes do caso.

Segundo o ministro, o conteúdo que poderia ser tornado público foi disponibilizado e algumas informações necessariamente permanecem protegidas — como diligências em andamento ou futuras e dados bancários, fiscais e pessoais de pessoas físicas e jurídicas.

Esse argumento tem base jurídica evidente: transparência de processo judicial não significa publicação irrestrita de todo dado protegido por lei ou de medidas que possam ser frustradas se antecipadas.

A controvérsia está em saber se esse limite foi aplicado de forma consistente ou se houve escolhas que destacaram determinados fatos antes de outros.

Essa resposta exige mais do que observar quem saiu prejudicado nas manchetes.

Dark Horse é evidência contra uma tese forte, não prova de imparcialidade

Os documentos sobre Flávio funcionam como uma evidência importante contra uma versão específica da acusação: a de que Mendonça estaria simplesmente usando o caso Master para atingir Moraes e blindar o campo político que o levou ao STF.

Se esse fosse o único objetivo, autorizar o inquérito de Flávio, homologar atos investigativos relacionados e permitir que material tão politicamente prejudicial viesse a público seria difícil de conciliar com a tese.

Mas daí não segue que Mendonça seja necessariamente imparcial em todas as decisões do caso.

Um relator pode divulgar material que prejudica aliados e, ainda assim, ser criticado por critérios de timing, competência, sequência de decisões ou tratamento desigual entre diferentes peças do processo.

Em outras palavras: o efeito político plural das divulgações é um dado relevante, mas não substitui a análise processual.

O que é possível concluir hoje

Com o material disponível até 12 de setembro, três conclusões são mais seguras.

Primeiro: dizer que Mendonça só expôs adversários de Moraes ou protegeu integralmente o bolsonarismo não descreve bem o conjunto que veio a público. O caso Dark Horse é a principal evidência contra essa leitura.

Segundo: dizer que isso prova a imparcialidade de Mendonça também vai além das evidências. As críticas da PGR, de Fachin e de ministros do STF sobre abrangência e sequência da abertura continuam sendo questões separadas.

Terceiro: a avaliação mais sólida depende de comparar o conjunto de documentos divulgados, preservados e posteriormente abertos, verificando qual justificativa jurídica foi usada em cada caso.

Por enquanto, Dark Horse muda o peso do debate: a acusação de uma operação puramente ideológica fica mais fraca; a discussão sobre seletividade processual continua aberta.

Fontes

Agência Brasil / Folha de S.Paulo / UOL ↗

Agência Brasil — Mendonça incluiu Flávio Bolsonaro como investigado no caso Dark Horse: https://agenciabrasil.ebc.com.br/justica/noticia/2026-09/mendonca-incluiu-flavio-bolsonaro-como-investigado-no-caso-dark-horse

Agência Brasil — Fachin dá 24h para Mendonça levantar sigilo de todo caso Master: https://agenciabrasil.ebc.com.br/justica/noticia/2026-09/fachin-da-24h-para-mendonca-levantar-sigilo-de-todo-caso-master

Agência Brasil — Mendonça diz ter divulgado todo conteúdo disponível no caso Master: https://agenciabrasil.ebc.com.br/justica/noticia/2026-09/mendonca-diz-ter-divulgado-todo-conteudo-disponivel-no-caso-master

Agência Brasil — Mendonça levanta sigilo de quase 40 processos no STF: https://agenciabrasil.ebc.com.br/justica/noticia/2026-09/mendonca-levanta-sigilo-de-quase-40-processos-no-stf

Folha de S.Paulo — quebra de sigilo do Master expõe Flávio Bolsonaro investigado e gera nova troca de ataques no STF: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/09/quebra-de-sigilo-do-master-expoe-flavio-bolsonaro-investigado-e-gera-nova-troca-de-ataques-no-stf.shtml

Folha de S.Paulo — Mendonça retira sigilo de investigações que envolvem Dark Horse, Flávio, Jaques Wagner e Ciro Nogueira: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/09/mendonca-retira-sigilo-da-investigacao-sobre-dark-horse-e-outros-processos-do-caso-master.shtml

UOL — Mendonça responde a Fachin e diz que todos os sigilos já foram liberados: https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2026/09/11/decisao-mendonca-sigilo.ghtm

UOL — caso Master: Fachin pede fim do sigilo, mas Mendonça define os limites: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/redacao/2026/09/11/caso-master-fachin-pede-fim-do-sigilo-mas-mendonca-define-os-limites.ghtm