O boom global de investimentos em inteligência artificial está criando novas vulnerabilidades para a estabilidade financeira, afirmou nesta quinta-feira (10) Pablo Hernández de Cos, diretor-geral do Banco de Compensações Internacionais (BIS), instituição conhecida como o banco dos bancos centrais.

Segundo Hernández de Cos, a escala da expansão já é grande o suficiente para afetar condições econômicas e financeiras no mundo. O BIS estima que as cinco maiores empresas de tecnologia investirão mais de US$ 1 trilhão em IA entre 2025 e 2026, enquanto projeções da indústria apontam que o investimento global relacionado à tecnologia pode chegar a US$ 4 trilhões até 2030.

Apuração principal: Reuters — AI boom poses new financial stability risks, BIS head says

Dívida e crédito privado entram no radar

O alerta não significa que o BIS esteja prevendo uma crise causada pela inteligência artificial. A preocupação é com a combinação entre velocidade do investimento, expectativas muito altas de retorno e mudança na forma de financiamento.

Hernández de Cos afirmou que uma parcela crescente da expansão começa a depender de dívida e crédito privado, e não apenas do caixa gerado pelas próprias empresas. Parte dessas estruturas é menos transparente e mais interconectada, o que pode dificultar a avaliação de riscos por investidores e autoridades.

Um estudo do próprio BIS publicado em julho modelou a corrida de investimentos em IA como um ambiente em que empresas podem comprometer capital acima do nível economicamente eficiente para não perder posição competitiva. O trabalho concluiu que dívida, ativos especializados e ligações financeiras entre empresas podem ampliar perdas caso as expectativas de receita não se concretizem.

Estudo do BIS: The AI investment race

Produtividade é real, mas retorno ainda precisa aparecer

O diretor-geral do BIS reconheceu que a IA já produz ganhos relevantes em tarefas como programação, consultoria e escrita profissional. Estudos citados por ele apontam aumentos de produtividade que variam de 10% a 65% em atividades específicas.

A dúvida é quanto desse avanço se transformará em ganho duradouro para a economia como um todo. Estimativas atuais citadas pelo BIS indicam que a tecnologia poderia elevar o crescimento anual da produtividade total dos fatores em aproximadamente 0,5 ponto percentual, dependendo da velocidade de adoção e da capacidade de realocar trabalhadores e capital.

Esse equilíbrio importa porque grande parte dos preços de ações e dos projetos de infraestrutura pressupõe retornos elevados no futuro. Caso lucros fiquem muito abaixo das expectativas, a correção pode atingir empresas de tecnologia, financiadores, fornecedores e ativos ligados à expansão de data centers.

IA também muda o mapa de comércio e empregos

A corrida por chips e infraestrutura já beneficia economias fortemente ligadas à cadeia de semicondutores, como Coreia do Sul, Taiwan, Singapura e Malásia, segundo Hernández de Cos.

Ao mesmo tempo, o avanço da automação começa a produzir sinais de substituição de trabalho em áreas como atendimento ao cliente, programação e funções administrativas. Para o BIS, políticas de requalificação profissional serão importantes para determinar como os ganhos da tecnologia serão distribuídos.

O alerta econômico chega um dia depois de o Instituto de Estabilidade Financeira do próprio BIS publicar um relatório específico sobre riscos cibernéticos de modelos avançados de IA para bancos e outras instituições financeiras. O documento afirma que sistemas de fronteira estão encurtando o intervalo entre a descoberta e a exploração de vulnerabilidades, aumentando a pressão sobre equipes de segurança.

Documento oficial: BIS — When machines attack: frontier AI cyber threats and policy responses in the financial sector

O que o alerta significa

O BIS não questiona que a inteligência artificial possa gerar crescimento econômico. O ponto é que uma tecnologia produtiva também pode produzir uma bolha de investimento se o capital crescer mais rápido que os retornos comerciais.

Hernández de Cos comparou o momento atual a outros grandes ciclos de investimento tecnológico, como ferrovias e a expansão da internet. Esses episódios produziram infraestrutura e ganhos permanentes, mas também passaram por períodos de excesso de capital e correções severas.

Por isso, bancos centrais e reguladores acompanham não apenas os modelos de IA, mas também quem financia a expansão, quanto endividamento está sendo acumulado e o que acontece se as expectativas de lucro forem frustradas.

Fontes

Reuters / Bank for International Settlements ↗

https://www.reuters.com/business/finance/ai-boom-poses-new-financial-stability-risks-bis-head-says-2026-09-10/ | https://www.bis.org/publications/working-paper-1367-ai-investment-race | https://www.bis.org/publications/fsi-paper-28-when-machines-attack-frontier-ai-cyber-threats-and-policy-responses-financial-sector