O Federal Register, diário oficial do governo dos Estados Unidos, oferecia em seu site uma opção de busca baseada no Qwen, família de modelos de inteligência artificial da Alibaba, e retirou a ferramenta após a presença do sistema repercutir nas redes. O episódio chama atenção porque ocorreu poucos dias depois de autoridades americanas acusarem empresas chinesas de copiar capacidades de modelos de IA dos Estados Unidos em escala industrial.
A Reuters informou nesta quinta-feira, 17 de setembro, que a busca com Qwen estava disponível na quarta-feira ao lado de outros modos de pesquisa e foi removida aproximadamente no mesmo período em que publicações nas redes passaram a destacar sua presença. O site do Federal Register é operado pela National Archives and Records Administration (NARA). Não estava claro havia quanto tempo o recurso funcionava.
Fonte: a Reuters documentou a presença e a retirada da opção de busca baseada no Qwen, com base em capturas de tela e versão arquivada do código do site.
Uso não equivale a enviar dados à Alibaba
O Qwen é uma família de modelos de pesos abertos, o que permite que desenvolvedores baixem e executem componentes em infraestrutura própria. Por isso, a presença do modelo em um serviço federal não prova, por si só, que dados do governo tenham sido enviados para servidores da Alibaba na China.
Especialistas ouvidos pela Reuters disseram que o uso descrito não parecia representar risco imediato de segurança nacional, especialmente porque o Federal Register trabalha com documentos públicos. O professor Anupam Chander, da Georgetown Law, observou que a avaliação também depende de como o sistema foi treinado e implantado.
O senador Mark Warner, vice-presidente do Comitê de Inteligência do Senado, afirmou que o ponto decisivo seria saber se dados americanos deixaram o perímetro de segurança do governo e foram processados em sistemas controlados pela Alibaba. A NARA e a Casa Branca não haviam respondido aos pedidos de comentário da Reuters até a publicação da reportagem.
A contradição política
O caso ganhou relevância principalmente pelo contraste com a política recente de Washington. Na semana anterior, autoridades americanas haviam acusado laboratórios chineses de usar técnicas de destilação para extrair capacidades de modelos avançados desenvolvidos nos Estados Unidos.
A Anthropic publicou detalhes técnicos sobre campanhas que atribui a laboratórios sediados na China, incluindo mais de 151 milhões de trocas atribuídas à Alibaba entre maio e julho de 2026, mais de 23 milhões ligadas à Moonshot AI e 12,1 milhões atribuídas à DeepSeek em 14 dias de julho. Esses números e atribuições são conclusões da investigação da própria Anthropic, não decisões judiciais independentes.
Fonte primária: a Anthropic publicou o relatório técnico com os casos, métodos e escalas observadas.
Segundo a empresa, operadores ligados à Alibaba teriam usado milhares de contas fraudulentas e serviços de proxy para consultar modelos Claude Opus em larga escala, com objetivo de obter traços de raciocínio e produzir dados úteis ao treinamento de modelos da família Qwen. No pico, a campanha teria se aproximado de 3 milhões de trocas por dia.
O alerta americano
A NSA, o FBI e a CISA também publicaram alerta sobre campanhas de destilação contra modelos avançados dos Estados Unidos. As autoridades caracterizaram a atividade como extração em escala industrial e recomendaram medidas para detectar e dificultar esse tipo de operação.
Documento oficial: a NSA publicou o alerta conjunto com FBI e CISA.
A retirada do Qwen do Federal Register não demonstra que o modelo tenha causado incidente de segurança. O fato novo é institucional: uma ferramenta baseada em tecnologia de uma empresa chinesa criticada pelas próprias autoridades americanas estava integrada a um serviço oficial do governo e desapareceu depois que essa escolha se tornou pública.
O que é destilação de IA
Destilação é uma técnica legítima em que um modelo menor aprende a reproduzir parte das capacidades de um modelo maior. A controvérsia surge quando grandes volumes de respostas são obtidos de forma automatizada, encoberta ou em violação aos controles do provedor para replicar capacidades proprietárias.
A Anthropic chama esse processo de “destilação ilícita” quando envolve campanhas industriais, contas fraudulentas ou outras formas de contornar controles de acesso e termos de serviço.
Por que isso importa
O episódio expõe uma dificuldade prática da disputa tecnológica entre Estados Unidos e China. Modelos de pesos abertos podem ser baixados, modificados e executados localmente, o que torna a origem nacional da tecnologia menos visível do que em serviços hospedados por uma empresa estrangeira.
Ao mesmo tempo, a presença do Qwen em um site federal mostra a distância que pode existir entre a mensagem política sobre dependência tecnológica chinesa e as decisões técnicas tomadas dentro de sistemas públicos. A questão de segurança depende de como a ferramenta foi implantada; a questão política, porém, já estava posta assim que o uso veio a público.
Fontes
https://www.reuters.com/legal/litigation/us-government-website-used-ai-search-tool-china-that-fbi-said-copied-anthropic-2026-09-17/ | https://www.anthropic.com/threat-intelligence-report-september-2026 | https://www.nsa.gov/Press-Room/Press-Releases-Statements/Press-Release-View/Article/4592113/nsa-and-others-warn-china-based-ai-companies-are-distilling-us-frontier-ai-mode/ | https://www.reuters.com/technology/us-accuses-chinese-ai-firms-industrial-scale-theft-ai-technology-2026-09-08/ | https://commons.wikimedia.org/wiki/File:National_Security_Agency_headquarters,_Fort_Meade,_Maryland.jpg
