Uma discussão sobre modelos de óculos virou uma das sínteses mais curiosas da disputa que Renan Santos (Missão) tenta abrir dentro da direita brasileira. Em um vídeo de atualização de campanha, o candidato adotou as expressões “Direita Wayfarer” e “Direita Juliet” para contrapor, em sua narrativa, dois estilos de fazer política.

A metáfora não nasceu como categoria de ciência política. Ela circulou entre apoiadores nas redes e foi incorporada por Renan ao discurso. Publicações compartilhadas pelo próprio candidato usam a grafia “Juliet” — referência ao modelo de óculos associado à Oakley — em oposição ao estilo Wayfarer.

▶ Assista ao trecho (08:43): Renan começa a desenvolver a oposição entre ‘Juliet’ e ‘Wayfarer’

Na formulação de Renan, a “Direita Juliet” representa uma política guiada por quantidade, popularidade, fama e validação social. A “Wayfarer”, por outro lado, deveria valorizar forma, ideias, hierarquia, organização e projeto.

Essa é a visão do candidato sobre o próprio campo político. Não existe base objetiva para concluir que pessoas que usam determinado estilo, pertencem a uma classe social ou consomem determinada estética tenham maior ou menor capacidade intelectual ou política.

De Nikolas ao problema da ‘quantidade’

Renan usa a metáfora para aprofundar uma crítica que já havia feito na MathiasTV ao deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) e ao chamado “nicolismo”. Na entrevista anterior, acusou o grupo de priorizar fama, identidade e entretenimento em vez de construir uma organização política duradoura.

No novo pronunciamento, a crítica ganha uma linguagem mais filosófica. Renan contrapõe “forma” e “matéria” e diz enxergar no bolsonarismo jovem uma valorização excessiva da quantidade: mais seguidores, mais aprovação, mais identificação e mais alcance seriam confundidos, segundo ele, com qualidade política.

▶ Assista ao trecho (10:25): Renan desenvolve a ideia de ‘forma’ e ‘matéria’ e volta a criticar Nikolas

A Câmara registra produção legislativa de Nikolas — incluindo propostas, indicações, requerimentos e relatorias —, motivo pelo qual o AVATIX News já tratou como crítica política, e não fato demonstrado, a afirmação genérica de Renan de que o deputado não teria propostas.

O Livro Amarelo entra como contraponto

Quando Renan fala em “forma”, ele aponta o Livro Amarelo, programa político do Missão, como exemplo do que considera organização prévia de ideias. O raciocínio é que um movimento político deveria definir programa, instituições e prioridades antes de depender inteiramente do carisma de uma liderança.

▶ Assista ao trecho (13:48): Renan relaciona o Livro Amarelo à ideia de ordenamento

Essa lógica reaparece em outros pontos recentes da campanha. Na Jovem Pan, Renan criticou o que chama de anti-intelectualismo da direita, citou revista e editora e disse querer criar futuramente uma faculdade de ciências humanas. Também afirmou que um campo político precisa ser forte eleitoralmente e intelectualmente.

A conexão é importante: a “Direita Wayfarer” não aparece apenas como troca de roupa ou acessório. No discurso de Renan, ela funciona como rótulo cultural para uma direita que pretende se apresentar como mais programática, intelectualizada e organizada.

‘Ordem’ atravessa propostas bem diferentes

O vídeo também ajuda a enxergar uma palavra implícita em várias propostas apresentadas pelo candidato: ordem.

Na linguagem filosófica do pronunciamento, Renan fala em pessoas e instituições capazes de “dar forma” à realidade. Na sabatina da Jovem Pan, esse raciocínio aparece em áreas concretas: um Estado menor, mas concentrado em setores estratégicos; Presidência coordenando inteligência contra facções; metas para administrações municipais; centralização de dados do SUS com tecnologia; produção cultural organizada; reforma profunda das instituições políticas.

Não significa que todas essas propostas tenham a mesma origem ou que formem uma doutrina fechada. A ligação entre elas é uma leitura editorial do AVATIX News, baseada na repetição do vocabulário de organização, capacidade e coordenação nas falas recentes de Renan.

A metáfora da favela exige cuidado

O ponto mais sensível do pronunciamento aparece quando Renan usa favela e “favelização” como exemplos de perda de forma. Ele associa arquitetura desordenada, informalidade e ausência de planejamento a uma deterioração estética e institucional.

▶ Assista ao trecho (19:49): Renan relaciona ‘Direita Wayfarer’, forma e favelização

A fala deve ser preservada no contexto porque o argumento do candidato é mais amplo que uma frase isolada sobre moradores de favelas. Ao mesmo tempo, seria incorreto suavizar o conteúdo: Renan efetivamente escolhe a favela como metáfora de perda de forma e desordem.

A analogia também abre um problema. Urbanização precária é resultado de fatores históricos, econômicos, fundiários e de políticas públicas; transformar estética urbana em marcador de qualidade cultural ou política pode misturar fenômenos muito diferentes e carregar um componente de classe que a própria metáfora não resolve.

E o Centrão seria ‘antifrágil’ dentro do caos

Na parte final, Renan aplica a mesma lógica ao sistema político. Ele descreve o Centrão como uma força “antifrágil”: um grupo que, na sua interpretação, não apenas sobrevive a crises e mudanças, mas ganha poder com a volatilidade porque domina mecanismos de negociação e adaptação do sistema.

▶ Assista ao trecho (22:19): Renan apresenta a tese de que o Centrão se beneficia da volatilidade

Essa é uma tese política de Renan, não uma constatação mensurável de que o Centrão provoque instabilidade deliberadamente. A fala, porém, complementa a admissão anterior de que um eventual governo do Missão teria de negociar com parlamentares desse campo para construir maioria.

Uma direita anti-personalista liderada por um candidato presidencial

Há ainda uma tensão interessante. Renan critica movimentos que dependem demais de celebridades políticas e diz querer um partido e um programa capazes de sobreviver às próprias lideranças. Ao mesmo tempo, como qualquer campanha presidencial, a candidatura concentra atenção na figura do candidato — e ele encerrou a sabatina da Jovem Pan apresentando-se ao eleitor como a pessoa singular capaz de reunir as qualidades que considera necessárias.

Isso não torna automaticamente o discurso contraditório. Partidos podem buscar institucionalização enquanto exploram liderança pessoal numa eleição. Mas a tensão ajuda a definir um dos testes do projeto do Missão: descobrir se a promessa de substituir personalismo por programa continua de pé quando o próprio Renan se torna o principal ativo eleitoral do partido.

A “Direita Wayfarer”, portanto, vale menos como classificação sociológica do eleitor e mais como um instrumento retórico de disputa por hegemonia dentro da direita. Renan tenta transformar estética em uma linguagem simples para defender uma tese maior: popularidade, sozinha, não seria suficiente; o próximo ciclo político precisaria de organização, produção intelectual e capacidade institucional.

Fontes

Pronunciamento de Renan Santos / Jovem Pan ↗

https://www.youtube.com/watch?v=OwhZqwn-tHA | https://www.youtube.com/watch?v=bifNpN4uU6o | https://www.youtube.com/watch?v=4XKkgKzL4S0