Renan Santos (Missão) reconheceu que, se eleito presidente, precisará negociar com parlamentares do Centrão mesmo depois de fazer críticas duras a esse grupo político. O que começou como uma admissão genérica de governabilidade ganhou nesta quinta-feira (10), na Amcham Brasil, o mecanismo mais detalhado apresentado pelo candidato até agora.

A ideia de Renan é tentar transformar o interesse de deputados por espaço orçamentário em incentivo para aprovar cortes de gastos. Nas palavras usadas por ele, o objetivo seria transformar o Centrão em uma “máquina fiscalista”.

Da crítica à negociação

Na MathiasTV, Renan já havia resumido a necessidade de conversar com adversários com uma frase pragmática: “O político não é trouxa. Eu posso bater nele hoje e amanhã eu sento com ele. É o jogo”. Segundo o candidato, negociar votos e maioria seria inevitável, enquanto corrupção e acordos ilícitos seriam sua linha vermelha.

▶ Assista ao trecho da MathiasTV (00:42:16): Renan fala sobre negociação com o Centrão

No mesmo bloco, Renan usou linguagem agressiva ao prever a composição da próxima Câmara e falou em “280, 300 ladrões”. Essa frase é retórica política do candidato, não uma classificação factual de centenas de futuros deputados. Ele não apresentou lista de nomes ou condenações que sustentem o número.

A tese da “antifragilidade”

Em pronunciamento divulgado em 9 de setembro, Renan tentou explicar por que acredita que o Centrão preserva poder sob governos diferentes. Recorreu ao conceito de antifragilidade, popularizado por Nassim Nicholas Taleb, e argumentou que o bloco se beneficiaria de ambientes políticos instáveis por aumentar seu poder de barganha.

▶ Assista ao trecho (22:19): Renan desenvolve a tese sobre volatilidade e Centrão

A afirmação de que o Centrão deliberadamente produz ou deseja instabilidade é uma interpretação política de Renan, não um fato demonstrado. O termo Centrão descreve um conjunto fluido de partidos e parlamentares, não uma organização única com estatuto e estratégia comum.

Na Amcham, Renan apresentou o incentivo que usaria

Durante o Diálogo com Presidenciáveis da Amcham, Renan partiu de uma premissa: deputados e partidos respondem a incentivos previsíveis. Em vez de esperar uma conversão ideológica do Centrão ao ajuste fiscal, propôs mexer na estrutura de recompensas.

▶ Assista ao bloco da Amcham (23:17): Renan detalha emendas e “máquina fiscalista”

A proposta descrita oralmente funciona assim: se o Congresso aprovar medidas que reduzam despesas obrigatórias e abram espaço fiscal, parte desse espaço poderia aumentar a margem para gastos discricionários e emendas. Na visão de Renan, parlamentares passariam a ter interesse direto em aprovar reformas que diminuam gastos permanentes.

Ele conectou esse mecanismo à Lei de Responsabilidade Gerencial, proposta já apresentada pelo candidato para condicionar recursos e consequências políticas a indicadores de desempenho de prefeitos e gestores.

A etapa seguinte seria usar métricas de gestão para direcionar recursos municipais e, no longo prazo, aumentar a atividade econômica privada como forma de reduzir dependência de relações clientelistas.

O plano responde uma pergunta — e cria outras

A Amcham fecha uma lacuna importante do discurso anterior: como Renan pretende governar com um grupo que ataca publicamente? A resposta dele é que não precisa convencer o Centrão a compartilhar sua visão; precisa alterar os incentivos para que interesses políticos coincidam temporariamente com o objetivo fiscal.

Mas a cadeia depende de vários pressupostos ainda não respondidos. Renan não apresentou no encontro a fórmula jurídica que ligaria cada corte de despesa obrigatória a novo espaço para emendas, nem explicou qual seria o teto dessa relação.

Também há questões sobre incentivos perversos: ampliar a recompensa orçamentária para obter cortes poderia aumentar o valor da barganha parlamentar; indicadores municipais podem ser manipulados ou refletir desigualdades estruturais que não dependem apenas da qualidade da gestão; e mudanças relevantes na arquitetura do Orçamento podem exigir leis ou alterações constitucionais.

Negociação legal não é sinônimo de corrupção

O debate também exige separar instrumentos legítimos de práticas ilícitas. Coalizões presidenciais no Brasil envolvem negociação de agenda, posições no governo, emendas, prioridades orçamentárias e comando de comissões. Esses instrumentos não podem ser automaticamente classificados como corrupção ou compra de votos.

Renan tenta construir uma distinção: usar negociação e incentivos institucionais seria aceitável; trocar apoio por vantagem ilícita, não.

A novidade da Amcham é que a promessa deixou de ser apenas “vou negociar sem me corromper” e passou a incluir um mecanismo concreto. A viabilidade, porém, só poderá ser avaliada quando houver texto legal, valores, limites e regras de fiscalização capazes de mostrar como a “máquina fiscalista” funcionaria na prática.

Fontes

MathiasTV / pronunciamento de campanha / Amcham Brasil ↗

MathiasTV — entrevista completa: https://www.youtube.com/watch?v=4XKkgKzL4S0 Pronunciamento de campanha de 9 de setembro: https://www.youtube.com/watch?v=OwhZqwn-tHA Amcham — vídeo utilizado: https://www.youtube.com/watch?v=BYgrdW5BASg Agenda do Diálogo com Presidenciáveis: https://www.itatiaia.com.br/politica/eleicoes/agenda-dos-candidatos/renan-santos-participa-de-dialogo-na-amcham-em-sao-paulo-nesta-quinta-feira-10/ Câmara dos Deputados: https://www.camara.leg.br/ AVATIX News — Renan já havia admitido negociação com o Centrão no Flow: https://news.avatix.com.br/noticias/renan-centrao-resolucao-vinculante-composicao-governo-flow/