Renan Santos (Missão) fez uma autocrítica incomum sobre a comunicação política que ajudou a popularizar. Em uma live reproduzida pelo canal Inevitável Cortes, o candidato comparou grande parte do consumo de política nas redes a uma “pornografia política”: muito estímulo, indignação e sensação de participação, mas pouca conversão em ação concreta.
▶ Assista ao trecho (18:47): Renan apresenta a comparação sobre política nas redes
A expressão é uma metáfora usada pelo próprio candidato. Renan argumenta que algoritmos conseguem transformar a “energia cívica” do usuário em retenção e atenção. Para ele, assistir repetidamente a vídeos de indignação política pode produzir sensação de engajamento sem resultar em organização, participação ou transformação fora da tela.
Renan inclui o próprio conteúdo na crítica
O candidato não restringiu o argumento a adversários. Citou vídeos dele próprio e de nomes de campos ideológicos diferentes como exemplos de conteúdo que pode consumir essa energia sem necessariamente levar o público a agir.
Na leitura apresentada por Renan, a rede deixou de funcionar apenas como meio para organizar ações e passou a funcionar como fim: o objetivo de uma mensagem política passa a ser vista, compartilhada e reter atenção, independentemente da consequência concreta.
Essa é uma interpretação política e sociológica do candidato, não uma conclusão científica estabelecida pela live.
MBL aparece na própria autocrítica
O ponto mais incomum veio alguns minutos depois. Renan afirmou que o MBL, movimento do qual faz parte, foi um dos grupos que ajudaram a criar no Brasil a lógica de cultura política em redes que ele agora critica.
▶ Assista ao trecho (22:47): Renan diz que o MBL ajudou a criar a lógica da política em redes
Ele descreveu o movimento como um dos “criadores” ou “coautores” de uma construção coletiva da política digital brasileira. A afirmação de que o MBL criou essa cultura é ampla e não pode ser tratada como fato histórico mensurável.
Há, porém, base documental para dizer que o grupo e seus integrantes tiveram atuação precoce e relevante na comunicação política digital da direita brasileira.
Campanha de 2014 ajuda a contextualizar a fala
Estudos acadêmicos registram a participação de integrantes ligados ao futuro MBL na campanha de Paulo Batista para deputado estadual em 2014. A campanha do chamado “Raio Privatizador” apostava em vídeos curtos, humor e estética de internet e ganhou repercussão internacional, inclusive no The New York Times.
Trabalhos publicados pela revista Dados e pela Revista Angelus Novus, da USP, tratam esse episódio como parte da formação e da estratégia digital dos grupos liberais e conservadores que ganharam projeção na década seguinte.
Esse histórico sustenta a ideia mais limitada de que Renan e o entorno do MBL estiveram cedo e de forma relevante nesse processo. Não comprova, sozinho, que foram os responsáveis por criar a cultura política das redes no Brasil.
Crítica se conecta à mudança de campanha
A reflexão aparece no mesmo vídeo em que Renan admite que a estratégia de tentar provocar um grande “despertar” político no eleitorado não funcionou como sua campanha esperava.
Para ele, há uma contradição: as pessoas continuam consumindo política, os vídeos continuam alcançando audiência e candidatos mantêm presença digital, mas isso não se transforma automaticamente em mobilização cívica ou mudança de voto.
A campanha do Missão pretende responder a esse diagnóstico mudando o tom da reta final para uma comunicação mais positiva, focada em uma imagem de futuro, em vez de depender principalmente da indignação com crises políticas.
A autocrítica não significa abandono das redes — o próprio argumento foi feito em uma live e circula em um canal de cortes. Ela mostra, antes, que Renan passou a questionar o que métricas de atenção realmente produzem fora da plataforma.
Fontes
Inevitável Cortes / SciELO / Revista Angelus Novus ↗
Inevitável Cortes — trecho da live de Renan Santos: https://www.youtube.com/watch?v=dPBvn4y9Xyw
Dados/Scielo — estudo sobre a formação de um contrapúblico ultraliberal e a campanha digital de Paulo Batista: https://www.scielo.br/j/dados/a/xtmSkTyVvY4SRn3tpkNZhZR
Revista Angelus Novus/USP — estudo sobre ativismo liberal-conservador e o destaque da campanha Raio Privatizador no New York Times: https://revistas.usp.br/ran/es/article/download/207006/195912/634578
