A frase é curta, mas carrega uma história que começou anos antes.

Em 5 de julho de 2026, depois que Flávio Bolsonaro (PL-RJ) fez no X uma brincadeira sobre acumular a Presidência da República com o comando da Seleção Brasileira, Renan Santos (Missão) respondeu: “Devolve a casa do Richarlisson.”

A publicação ganhou repercussão e, dias depois, Renan lançou um Short de três minutos para explicar a provocação. O vídeo voltou a circular como resumo do caso, mas mistura fatos documentados com simplificações e acusações políticas que precisam ser separadas.

Post original: veja a resposta de Renan Santos no X.

O centro da história é uma mansão na Ilha Comprida, em Angra dos Reis (RJ), disputada por empresas ligadas ao jogador Richarlison e pelo advogado Willer Tomaz, amigo de Flávio. O senador, porém, nunca foi parte da ação judicial e não recebeu formalmente a posse do imóvel.

De onde veio o “devolve a casa”

No começo de julho, Richarlison voltou a comentar publicamente a disputa. Em uma publicação sobre o caso, o jogador afirmou ter gasto cerca de R$ 10 milhões no imóvel e disse que continuava sem recuperar o dinheiro.

Ele também repostou um antigo vídeo de Flávio mostrando a propriedade por drone e marcou o senador. A associação ganhou força nas redes porque Flávio havia visitado a mansão antes da negociação com o grupo ligado ao atleta e, mais tarde, retornou à região acompanhado de Willer Tomaz.

Reportagem do Metrópoles, publicada originalmente em 2022, mostrou que os advogados ligados ao grupo de Richarlison chegaram a arrolar Flávio como testemunha. A intenção era usar o relato do senador sobre suas visitas para contestar a tese de que os ocupantes anteriores seriam invasores.

Flávio sempre negou participação no negócio. Em manifestações reproduzidas por diferentes veículos, afirmou que não comprou, vendeu ou intermediou o imóvel e que sua ligação com Willer é de amizade.

O que aconteceu com a mansão

A área fica em terreno costeiro sujeito ao regime patrimonial da União. Na prática, a disputa envolve direitos de ocupação, posse e benfeitorias, além de registros na Secretaria do Patrimônio da União (SPU).

Uma empresa ligada a Richarlison e seus sócios negociou a casa em 2020. Em 2022, uma sequência de decisões judiciais sobre reintegração de posse colocou o imóvel sob controle da WT Administração, ligada a Willer Tomaz.

O caso teve idas e vindas. Em 2023, uma decisão de primeira instância extinguiu uma das ações que havia dado origem à disputa, mas a controvérsia continuou em instâncias superiores. Em 2025, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) manteve decisão desfavorável ao grupo ligado a Richarlison porque o recurso apresentado exigiria reexaminar provas e contratos, algo limitado nessa via recursal.

Isso é diferente de dizer que uma decisão judicial concluiu que Flávio Bolsonaro “tomou” a casa. Flávio não era parte da disputa.

Os R$ 10 milhões não foram o preço do contrato de compra

Um dos pontos que mais confundem a discussão é o valor do imóvel.

Richarlison disse nas redes ter gastado em torno de R$ 10 milhões. Esse número passou a ser repetido como se fosse o preço contratual da compra.

Documentos obtidos pelo Metrópoles, porém, mostram que a negociação de 2020 do grupo ligado ao jogador foi registrada em cerca de R$ 1,16 milhão. O valor de R$ 10 milhões se refere ao montante que o atleta afirma ter desembolsado no conjunto da operação e dos investimentos feitos no local, além de coincidir com avaliações de mercado publicadas sobre a mansão.

Do outro lado, a transferência ligada a Willer apareceu na matrícula por R$ 600 mil. O advogado disse ao Metrópoles que seu custo real teria superado R$ 5 milhões, considerando passivos tributários e outras despesas que, segundo ele, integraram a negociação.

Portanto, a frase de que Richarlison “pagou R$ 10 milhões e Willer pagou R$ 600 mil” é uma simplificação de números que medem coisas diferentes.

E a história de que tudo foi resolvido em 24 horas?

O Short de Renan também afirma que a regularização documental de Willer teria sido resolvida em cerca de 24 horas.

Documentos analisados pela Folha de S.Paulo em setembro permitem uma cronologia mais precisa. O processo de Willer na SPU foi protocolado em 11 de maio de 2022 e, no total, durou 61 dias.

O trecho excepcionalmente rápido ocorreu no fim da tramitação: depois do pagamento da taxa, em 7 de julho, foi feito um pedido manual de emissão da Certidão de Autorização para Transferência às 11h33 de 11 de julho. A autorização saiu às 13h13 do mesmo dia, menos de duas horas depois.

Willer afirma que esse intervalo corresponde apenas à etapa final, e não ao processo inteiro.

A Folha também informou que um pedido da empresa de Richarlison aguardava análise na SPU desde setembro de 2021. Questionada pelo jornal, a Secretaria não explicou a diferença de tratamento entre os dois processos.

Mulher grávida foi retirada da casa; homens armados também foram registrados

Outro episódio citado no vídeo tem documentação jornalística, mas a forma como ocorreu é mais específica do que o Short sugere.

Em 2022, o Metrópoles relatou que a mulher grávida de um dos sócios ligados ao grupo de Richarlison foi retirada da casa durante o cumprimento de uma ordem judicial de reintegração de posse, com participação da Polícia Militar do Rio de Janeiro. A reportagem afirmou que ela precisou de atendimento médico posteriormente.

Em outro período daquele ano, o imóvel chegou a ser protegido por homens armados. Reportagem de 2023 registrou que havia homens portando fuzis para impedir uma tentativa de retorno do grupo que havia perdido a posse.

Isso sustenta a existência dos dois episódios, mas não autoriza transformar automaticamente os agentes que cumpriram a ordem judicial em “capangas” de Flávio Bolsonaro.

Por que Flávio aparece nessa história

A relação de Flávio com o episódio é indireta, mas não inventada.

O senador visitou a mansão em 2020, antes da conclusão da venda ao grupo ligado a Richarlison. Segundo o antigo possuidor ouvido pelo Metrópoles, Flávio se interessou pelo local e chegou a publicar imagens aéreas feitas por drone.

Depois, Willer Tomaz — amigo próximo do senador — demonstrou interesse no imóvel e acabou envolvido na disputa pela posse. Flávio foi arrolado como testemunha exatamente porque suas visitas poderiam ajudar a esclarecer quem ocupava a casa e o que ele sabia sobre a negociação.

A proximidade entre os dois também é pública: Flávio já chamou Willer de amigo, viajou com ele e tentou apoiar seu nome para uma vaga no Conselho Nacional de Justiça em 2022.

Nada disso, isoladamente, demonstra que Flávio tenha participado da operação que transferiu os direitos sobre o imóvel.

Setembro trouxe um fato novo em Angra

A história ganhou uma nova camada em setembro.

A Folha de S.Paulo informou que Flávio, durante ato de campanha em Angra em 29 de agosto, defendeu revisar planos diretores e destravar licenças ambientais para condomínios, grandes empreendimentos e resorts na região.

A reportagem apontou que empresas de Willer Tomaz possuem três propriedades em Angra e que ele havia consultado, em 2025, o Instituto Estadual do Ambiente sobre o uso turístico de um terreno. A casa que esteve no centro da disputa com Richarlison também aparece em obras em imagens obtidas pelo jornal.

Willer rejeitou qualquer associação entre seus projetos e a proposta de Flávio. Disse que não participou da formulação, não foi consultado e classificou a ideia de favorecimento como sem base factual. A assessoria de Flávio afirmou à Folha que nunca houve sociedade ou negócio em comum entre os dois; sobre a proposta de licenciamento, não respondeu aos questionamentos da reportagem.

É esse fato novo que torna a velha provocação do X novamente relevante para entender a campanha de 2026.

O que é fato e o que é provocação política

O bordão funciona justamente porque mistura uma ligação real com uma conclusão muito mais forte do que os documentos demonstram.

  • É fato que empresas ligadas a Richarlison perderam a posse da mansão para a empresa de Willer Tomaz após uma disputa judicial.
  • É fato que Richarlison afirma ter investido cerca de R$ 10 milhões e diz não ter recuperado o dinheiro.
  • É fato que Willer é amigo de Flávio e que o senador visitou e filmou a propriedade antes da disputa, além de ter sido arrolado como testemunha.
  • Não há decisão judicial dizendo que Flávio tomou a mansão de Richarlison. Ele nunca foi parte da ação.
  • A cronologia da SPU é controversa, mas o processo completo de Willer durou 61 dias; a etapa final da certidão foi concluída em menos de duas horas.
  • A possível relação entre a proposta de Flávio para Angra e interesses empresariais de Willer é uma hipótese levantada pela Folha e rejeitada pelo advogado, não uma conclusão de favorecimento comprovado.

No X, cinco palavras bastaram para transformar um processo imobiliário complexo em munição eleitoral. Fora da rede, a história exige bem mais contexto.

Fontes

Renan Santos / Estado de Minas / Metrópoles / UOL / Folha de S.Paulo ↗

Renan Santos no X — resposta a Flávio Bolsonaro: https://x.com/RenanSantosMBL/status/2073887178153734385

Renan Santos — Short 'Devolve a casa do Richarlisson': https://www.youtube.com/watch?v=tA6xLZZeAuk

Estado de Minas — Renan Santos para Flávio Bolsonaro: 'Devolve a casa do Richarlison': https://www.em.com.br/politica/2026/07/7455536-renan-santos-para-flavio-bolsonaro-devolve-a-casa-do-richarlison.html

UOL — Richarlison desabafa sobre ação encerrada e marca Flávio Bolsonaro: https://www.uol.com.br/esporte/futebol/ultimas-noticias/2026/07/01/richarlison-desabafa-e-marca-flavio-bolsonaro-em-post-sobre-acao-arquivada.ghtm

Metrópoles — Flávio Bolsonaro foi arrolado como testemunha na disputa pela mansão: https://www.metropoles.com/colunas/guilherme-amado/exclusivo-flavio-bolsonaro-e-arrolado-como-testemunha-em-disputa-por-mansao-milionaria-em-ilha-paradisiaca

Metrópoles — valores declarados por Richarlison e Willer Tomaz: https://www.metropoles.com/colunas/demetrio-vecchioli/casa-de-r-10-milhoes-richarlison-e-tomaz-declararam-valor-bem-menor

Metrópoles — mansão foi protegida por homens com fuzis em período de 2022: https://www.metropoles.com/colunas/guilherme-amado/mansao-disputada-por-richarlison-e-amigo-de-flavio-bolsonaro-esta-para-alugar

Metrópoles — Richarlison volta a citar a disputa e decisão do STJ: https://www.metropoles.com/brasil/richarlison-disputa-mansao-flavio

Folha de S.Paulo — proposta de Flávio para empreendimentos em Angra e cronologia da SPU: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/monicabergamo/2026/09/projeto-de-flavio-para-resorts-em-angra-beneficia-amigo-do-senador-alvo-da-pf.shtml

Wikimedia Commons — foto de Richarlison, CC BY-SA 4.0: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Prefeito_Andr%C3%A9_Fagundes_homenageia_o_jogador_Richarlison_br_(cropped).webp