Os 0,1% mais ricos do Brasil elevaram sua participação estimada na renda nacional para um recorde de 13,1% em 2024, ante 10,2% em 2020, segundo análise do pesquisador de desigualdade Sergio Gobetti baseada nas declarações detalhadas de Imposto de Renda mais recentes. Os números foram publicados pela Reuters nesta sexta-feira (4).
O dado adiciona uma camada importante ao debate sobre desigualdade no país. Indicadores baseados em pesquisas domiciliares, como o índice de Gini, mostraram melhora recente na distribuição de renda, enquanto os registros tributários capturam com mais detalhe rendimentos financeiros concentrados entre contribuintes de renda muito alta.
Ganhos financeiros explicam parte do avanço
Segundo a análise citada pela Reuters, a renda financeira, principalmente retornos de aplicações de renda fixa, respondeu por quase um terço do aumento da participação dos 0,1% mais ricos na renda nacional entre 2020 e 2024.
No mesmo período, a arrecadação de imposto retido sobre rendimentos de fundos e outros ativos de renda fixa cresceu 325%, chegando a R$ 92,1 bilhões em 2024, de acordo com levantamento da Reuters sobre dados de arrecadação.
A Receita Federal atribuiu o crescimento principalmente à elevação da taxa Selic. O Ministério da Fazenda reconheceu que juros maiores provavelmente contribuíram para o movimento, mas ressaltou que os dados tributários também refletem decisões de carteira dos investidores e, isoladamente, não comprovam uma relação causal definitiva.
Por que a Selic pesa nessa conta
Entre 2020 e 2024, o Banco Central elevou a Selic de 2% para 12,25% ao ano em resposta à inflação do pós-pandemia e ao aquecimento da atividade econômica. Como uma parcela significativa da dívida pública brasileira é indexada à taxa básica, juros maiores aumentam também o retorno de títulos carregados principalmente por famílias com maior patrimônio financeiro.
O fenômeno não começou no atual governo. A Reuters destaca que o aumento da concentração no topo já ocorria durante a gestão de Jair Bolsonaro e ganhou força nos últimos anos com a expansão da dívida pública e o crescimento da participação de títulos ligados à Selic.
Em maio, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, explicou no Senado que aumentos da taxa de juros elevam diretamente a renda recebida por detentores de títulos pós-fixados.
Gini e dados tributários medem partes diferentes da desigualdade
O governo Lula tem destacado a queda recente do índice de Gini, o avanço do emprego, dos salários e de programas sociais como sinais de melhora na renda das camadas mais pobres. Esses movimentos podem coexistir com maior concentração no topo porque as fontes estatísticas captam partes diferentes da distribuição.
Pesquisas domiciliares são consideradas eficientes para medir salários e outras rendas do trabalho, mas costumam registrar de forma menos completa ganhos de investimentos e rendimentos muito elevados. As declarações de Imposto de Renda ajudam a preencher essa lacuna.
Por isso, o recorde de 13,1% não significa que a renda das famílias mais pobres necessariamente caiu no período. Ele indica que, ao mesmo tempo em que houve melhora em indicadores da base da distribuição, a parcela da renda apropriada pelo grupo mais rico também aumentou.
Tendência pode continuar com juros ainda altos
Os dados tributários detalhados de 2025 ainda não estão disponíveis para repetir a estimativa de participação dos 0,1% mais ricos. Outros indicadores, porém, mostram que a renda fixa continuou forte: a arrecadação sobre retornos de fundos e demais aplicações dessa categoria cresceu mais 25% em 2025 sobre o ano anterior.
O Banco Central iniciou cortes de juros em março de 2026, mas a Selic ainda está em 14% ao ano. A pesquisa semanal Focus citada pela Reuters indica expectativa do mercado de taxa em torno de 12% em 2027, o que sugere que o efeito dos juros elevados sobre a renda financeira pode permanecer relevante.
A discussão ganha peso adicional em um ano eleitoral porque contrapõe duas dimensões verdadeiras da economia brasileira: melhora recente de emprego e renda na base e, simultaneamente, aumento da concentração de ganhos financeiros no topo.
O AVATIX News acompanha os principais indicadores e decisões que afetam a economia brasileira na editoria de Economia.
Fontes
https://www.reuters.com/world/americas/brazils-richest-captured-record-income-share-despite-lulas-effort-prioritize-2026-09-04/ | https://commons.wikimedia.org/wiki/File:S%C3%A3o_Paulo_Stock_Exchange_Building.jpg
