O Brasil possui a segunda maior reserva conhecida de terras raras do mundo, com cerca de 21 milhões de toneladas, mas ainda transforma pouco desse potencial em produção e indústria.

Os dados citados pelo UOL neste domingo (6), com base no Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), colocam o país atrás apenas da China, que concentra aproximadamente 44 milhões de toneladas em reservas.

A diferença entre ter o recurso no subsolo e dominar a cadeia produtiva, porém, é enorme. Em 2025, o Brasil produziu cerca de 2 mil toneladas de terras raras, enquanto a China extraiu aproximadamente 270 mil toneladas.

A discussão ganhou um novo componente nesta semana: o Congresso aprovou o PL 2.780/2024, que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos e tenta estimular não apenas a extração, mas também o processamento e a transformação desses materiais dentro do país.

O que são terras raras

Terras raras são um grupo de elementos químicos utilizados em cadeias tecnológicas de alto valor, incluindo ímãs de alta performance, eletrônicos, veículos elétricos, geração de energia e equipamentos de defesa.

Elas fazem parte de uma categoria mais ampla de minerais críticos, que pode incluir também recursos como lítio, níquel, cobre e grafita.

A importância desses materiais cresceu com a expansão de baterias, data centers, energias renováveis, veículos elétricos e tecnologias militares.

O ponto central é que a relevância econômica não depende apenas de extrair minério. Refino, separação, processamento e fabricação de componentes concentram parte significativa do valor agregado e do poder geopolítico da cadeia.

Novo marco segue para sanção

O Senado aprovou em 2 de setembro a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. A tramitação oficial registra o projeto como aprovado e encaminhado à Presidência da República para sanção.

O texto prevê instrumentos que podem somar até R$ 7 bilhões em incentivos governamentais.

Desse total, estão previstos R$ 2 bilhões para o Fundo Garantidor da Atividade Mineral (FGAM) e R$ 5 bilhões em incentivos voltados ao beneficiamento e à transformação de minerais no Brasil.

A lógica é reduzir um problema recorrente de países ricos em recursos naturais: exportar matéria-prima de menor valor e importar produtos ou componentes industrializados muito mais caros.

Estudo projeta até R$ 192,1 bilhões no PIB

Um estudo da Amcham Brasil citado pelo UOL compara cenários para o desenvolvimento da cadeia de minerais críticos até 2050.

No cenário mais limitado, com maior dependência da exportação e menor agregação de valor, o impacto acumulado estimado sobre o PIB seria de R$ 128,7 bilhões, com geração de aproximadamente 304 mil empregos.

Em um cenário de maior investimento, processamento no país e integração dos minerais à indústria nacional, a projeção chega a R$ 192,1 bilhões e 750 mil empregos.

A diferença entre os cenários é de R$ 63,4 bilhões e 446 mil postos de trabalho.

Esses valores são projeções econômicas, não resultados garantidos. Dependem de investimentos, infraestrutura, licenciamento, tecnologia, demanda, capacidade de processamento e execução das políticas públicas.

De onde vêm os R$ 7 bilhões

O projeto prevê aporte de R$ 2 bilhões da União no FGAM para atividades ligadas à produção de minerais críticos e estratégicos.

Também reserva R$ 5 bilhões em incentivos para beneficiamento e transformação em território brasileiro.

Por seis anos, empresas de pesquisa, lavra, beneficiamento e transformação enquadradas na política deverão direcionar 0,2% da receita operacional bruta ao fundo garantidor e 0,3% a projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação tecnológica.

Depois desse período, a parcela destinada ao fundo poderá ser redirecionada para pesquisa, levando o total dedicado a projetos tecnológicos a até 0,5%.

Reserva sozinha não garante liderança

O tamanho das reservas coloca o Brasil em posição estratégica, mas não garante liderança automática.

A China não domina apenas a extração de terras raras. O país também construiu grande capacidade de separação, refino, processamento e fabricação de componentes, etapas decisivas para transformar minério em tecnologia.

É essa diferença que ajuda a explicar por que um país pode ter reservas gigantescas e ainda ocupar uma posição pequena na cadeia global.

Para o Brasil, o desafio é converter vantagem geológica em conhecimento, infraestrutura, indústria e produtos de maior valor agregado.

O que acontece agora

A aprovação do Congresso não significa que a nova política já esteja plenamente em vigor.

O projeto foi encaminhado à Presidência da República, que poderá sancioná-lo ou vetar trechos. Depois disso, parte dos mecanismos ainda dependerá de regulamentação para definir critérios de enquadramento, funcionamento de fundos, cadastro e acesso aos incentivos.

A atualização deste domingo reforça o tamanho da oportunidade: o Brasil já tem uma das maiores reservas do planeta. O passo mais difícil é transformar essa riqueza mineral em uma cadeia industrial competitiva dentro do próprio país.

Fontes

Agência Senado / Senado Federal / UOL Economia ↗

UOL Economia — Brasil tem 2ª maior reserva de terras raras e mira indústria

Senado Federal — tramitação do PL 2.780/2024

Agência Senado — aprovação da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos