A Bilibili afirma ter ferramentas que, no papel, deveriam tornar difícil publicar um filme comercial inteiro sem ser detectado.
A companhia descreve triagem por inteligência artificial, bancos internos de obras protegidas, fingerprints de vídeo, revisão humana, denúncias de titulares e um sistema de proteção aos próprios creators.
Mesmo assim, páginas com longas completos enviados por usuários continuam sendo encontradas.
Isso não significa necessariamente que o sistema “não funciona”.
Significa que detecção de copyright em uma plataforma com centenas de milhões de usuários é uma corrida permanente entre identificação, contexto e tentativas de contornar o filtro.
Como a triagem funciona
No relatório anual, a Bilibili descreve dois níveis de revisão.
O primeiro é automatizado.
Vídeos recém-enviados são comparados com materiais presentes em bancos internos de conteúdo protegido ou problemático.
O sistema procura similaridades e extrai características técnicas — os chamados fingerprints — que ajudam a identificar uma obra mesmo quando o arquivo não é exatamente idêntico à cópia de referência.
Conteúdo sinalizado pode então seguir para uma segunda camada de revisão humana.
A empresa também usa informações externas
O relatório anual de 2025 diz que a Bilibili remove uploads quando é notificada por titulares ou quando toma conhecimento da infração por fontes autorizadas.
A empresa cita inclusive informações de mercado sobre lançamentos de filmes e séries como um dos sinais que podem ajudar na detecção.
Isso faz sentido.
Um upload de duas horas de um filme que acabou de estrear exige atenção diferente de um vídeo caseiro de duas horas.
1,1 milhão de links removidos
A escala do enforcement aparece no relatório ESG de 2024.
Segundo a própria Bilibili, mais de 67 mil creators haviam aderido ao Content Creator Copyright Protection Program até o fim daquele ano.
O programa levou à remoção de 1,1 milhão de links infratores.
Também existe uma ferramenta de proteção de conteúdo original que ajuda creators a localizar reuploads dentro da própria plataforma e solicitar retirada em um clique.
Então como um filme inteiro escapa?
Há várias possibilidades técnicas.
1. A obra não está no banco de referência
Fingerprinting depende de material conhecido.
Se a plataforma não recebeu uma referência válida de determinado titular ou território, a identificação pode ser menos precisa.
2. O upload foi alterado
Reuploads podem mudar resolução, proporção, velocidade, cor, áudio ou estrutura.
Adicionar uma dublagem diferente, cortar créditos, inserir bordas ou misturar trechos também muda o arquivo analisado.
Sistemas modernos conseguem detectar muitas dessas alterações, mas nenhum é infalível.
3. Direitos variam por país
Um filme pode estar licenciado para uma empresa nas Filipinas, outra no Brasil e outra na China.
A plataforma precisa combinar identificação técnica com regras territoriais.
Um vídeo pode ser legítimo em um país e bloqueado em outro.
Isso explica por que algumas páginas da Bilibili exibem aviso de indisponibilidade “a pedido do detentor dos direitos” apenas para determinadas regiões.
4. A escala é enorme
A Bilibili encerrou 2025 com aproximadamente 4 milhões de creators ativos por mês e dezenas de milhões de uploads ao longo do ano.
Mesmo uma taxa de erro pequena pode representar milhares de vídeos.
5. A plataforma também depende de denúncias
Os próprios termos incentivam titulares e creators a enviarem reclamações.
Isso significa que uma parte do enforcement ainda é reativa: o conteúdo pode ficar disponível até ser identificado pelo sistema ou denunciado.
O problema do “reupload resiliente”
Há ainda uma dinâmica comum em plataformas UGC.
Um conteúdo cai.
Outro usuário publica novamente.
A nova versão recebe alterações para evitar detecção.
O processo se repete.
Em discussão pública entre creators, há relatos de autores estrangeiros que encontram seus vídeos repostados com legendas chinesas e precisam denunciar múltiplas cópias.
Relatos comunitários não comprovam a eficiência média do sistema, mas ilustram um problema conhecido de qualquer plataforma baseada em uploads em massa.
A Bilibili não é tecnicamente passiva
O caso MBC torna isso especialmente importante.
Em 2026, a Justiça chinesa reconheceu responsabilidade da operadora em um conflito no qual conteúdo protegido circulou em larga escala.
A lógica jurídica discutida no processo é que recomendação e curadoria podem aumentar o dever de agir.
Se um algoritmo consegue perceber que um vídeo está gerando audiência suficiente para recomendá-lo a milhares de pessoas, cresce a pressão para que a infraestrutura de copyright também consiga avaliá-lo.
A expansão global torna o filtro mais difícil
Mais idiomas significam mais faixas de áudio.
Mais países significam mais contratos territoriais.
Mais creators significam mais uploads.
Mais estúdios parceiros significam mais obras protegidas para administrar.
Por isso, a tecnologia antipirataria da Bilibili pode se tornar uma das áreas mais importantes — e menos visíveis — de sua tentativa de competir globalmente.
Não basta traduzir o aplicativo.
Para disputar o mercado mundial de vídeo, a empresa também terá de provar que consegue escalar seu sistema de direitos autorais.
Fontes
Bilibili — Form 20-F e relatório ESG ↗
https://www.sec.gov/Archives/edgar/data/1723690/000119312526157842/d91984d20f.htm
https://www.sec.gov/Archives/edgar/data/1723690/000119312525076807/d926409dex992.htm
