Uma modalidade de fraude identificada pela Serasa Experian mostra como tecnologias de comparação facial também passaram a ser estudadas e exploradas por criminosos.
No chamado “golpe do sósia”, o fraudador parte do próprio rosto para procurar identidades legítimas de pessoas fisicamente semelhantes. Depois, tenta usar os dados da vítima em jornadas como abertura de contas, cadastros ou outras operações que envolvam reconhecimento facial.
A estratégia aparece na edição do Mapa da Fraude do primeiro semestre de 2026, divulgada pela Serasa Experian, e ganhou repercussão nacional neste domingo (6).
A fraude começa pelo rosto do criminoso
A modalidade chama atenção porque inverte a lógica mais conhecida da fraude de identidade.
Em muitos golpes tradicionais, o criminoso obtém primeiro os dados de uma vítima específica e depois procura uma forma de se passar por ela. No golpe do sósia, o processo começa com a aparência do próprio fraudador.
Segundo a Serasa Experian, criminosos podem usar motores de comparação facial para confrontar o próprio rosto com imagens disponíveis em bases obtidas de forma ilícita e buscar identidades com alto grau de semelhança.
A empresa afirma ter observado casos em que essas ferramentas apontavam similaridade de até 99% entre faces. Esse percentual é uma medida produzida pelos sistemas de comparação e não significa que qualquer autenticação biométrica será automaticamente enganada.
A tentativa de fraude vem depois: o criminoso seleciona uma identidade considerada mais compatível e procura usá-la em uma operação digital.
Biometria facial não deve funcionar sozinha
O alerta da Serasa não é de que a biometria facial tenha sido “quebrada”. Sistemas de autenticação variam bastante e soluções mais robustas combinam diversos sinais antes de aceitar uma identidade.
A recomendação é justamente usar a face como uma camada entre várias, junto de validação documental, prova de vida, dados cadastrais, análise do dispositivo e outros indicadores de risco.
Essa combinação ajuda a detectar inconsistências que podem não aparecer quando a decisão depende apenas de uma imagem facial.
2,86 milhões de tentativas de fraude no semestre
O Mapa da Fraude informa que as tecnologias antifraude da Serasa Experian identificaram e bloquearam 2,86 milhões de tentativas de fraude de identidade no primeiro semestre de 2026.
O número representa alta de 32,9% em relação ao mesmo período de 2025 e equivale, segundo a empresa, a uma ocorrência de alto risco detectada a cada 5,5 segundos.
As tentativas bloqueadas estiveram associadas a um prejuízo evitado estimado em R$ 3,77 bilhões.
É importante separar os números: esses dados se referem ao conjunto de fraudes de identidade detectadas pelas soluções da empresa, e não exclusivamente ao golpe do sósia.
Como reduzir o risco
Para usuários, medidas básicas continuam importantes: evitar publicar imagens de documentos, não enviar selfies com documentos a contatos desconhecidos, desconfiar de links inesperados que peçam reconhecimento facial e fornecer dados biométricos apenas em serviços legítimos.
Também vale proteger o celular e aplicativos sensíveis com autenticação forte e acompanhar movimentações suspeitas ligadas ao CPF ou a contas financeiras.
Para empresas, a lição é mais estrutural: semelhança facial não deve ser tratada como prova única de identidade.
A evolução desse tipo de golpe mostra uma disputa cada vez mais sofisticada. As mesmas tecnologias usadas para verificar quem está do outro lado da tela podem ser estudadas por fraudadores para descobrir onde estão as brechas — e isso torna a autenticação em camadas ainda mais importante.
Fontes
Serasa Experian — Golpe do sósia e Mapa da Fraude
Agência Brasil — Golpe do sósia usa tecnologia para tentar burlar biometria
