A equipe econômica de Renan Santos (Missão) detalhou uma nova peça de sua proposta para a Previdência: transformar o FGTS em uma poupança vinculada ao CPF do trabalhador, com recursos usados tanto na proteção contra o desemprego quanto na formação de uma parcela capitalizada da aposentadoria.

O desenho foi apresentado por Kim Kataguiri, coordenador econômico da campanha, em entrevista ao videocast C-Level, da Folha de S.Paulo, publicada em 18 de setembro. Segundo ele, a proposta também inclui uma renda mínima para idosos, redução do teto do INSS e correção da idade mínima de aposentadoria conforme a expectativa de vida.

Fonte primária da apuração: leia a entrevista do C-Level/Folha com Kim Kataguiri.

Como funcionaria o FGTS no plano

Pelo modelo descrito por Kim, o saldo do FGTS permaneceria ligado ao trabalhador. Em caso de demissão, serviria para financiar o seguro-desemprego; na aposentadoria, o valor acumulado formaria uma poupança individual.

A mudança é uma proposta de campanha, não uma regra aprovada. Seu desenho final dependeria de legislação, transição para trabalhadores já inseridos no sistema e definição de como seriam financiadas obrigações atuais da Previdência.

Meta fiscal e revisão de incentivos

Na mesma entrevista, Kim afirmou que a campanha pretende buscar superávit primário entre 1,5% e 2% do PIB, substituir o atual arcabouço fiscal e revisar cerca de R$ 200 bilhões em incentivos tributários. Entre os pontos citados está o fim da Zona Franca de Manaus no formato atual.

O coordenador econômico também defendeu limitar o crescimento das despesas obrigatórias à inflação e vincular o espaço para emendas parlamentares às despesas discricionárias. Esses números e efeitos são projeções da campanha e dependeriam da aprovação das medidas e do comportamento da economia.

Desindexação de BPC e aposentadorias continua no pacote

Renan já havia defendido na sabatina da Jovem Pan que o piso das aposentadorias e o Benefício de Prestação Continuada (BPC) deixem de acompanhar automaticamente os ganhos reais concedidos ao salário mínimo.

A proposta é manter a reposição da inflação, mas permitir que o salário mínimo tenha aumentos acima dela sem que todo ganho real seja transferido automaticamente aos benefícios vinculados.

Vídeo: Renan fala sobre ajuste, Previdência, BPC e vinculações na sabatina da Jovem Pan.

A comparação internacional feita por Renan estava errada

Ao defender a desindexação, Renan afirmou na Jovem Pan que nenhum país “sério” da OCDE faria vinculação semelhante e citou a Colômbia como possível exceção.

A própria emissora checou a declaração depois da sabatina e classificou a comparação como incorreta. A Colômbia integra a OCDE e sua Constituição prevê que aposentadorias contributivas não podem ficar abaixo de um salário mínimo.

Portanto, é possível discutir os efeitos fiscais da vinculação brasileira e defender sua mudança, mas não é correto afirmar que nenhum país da OCDE mantém mecanismo semelhante.

O que a desindexação mudaria no Brasil

Hoje, benefícios vinculados ao piso acompanham o valor do salário mínimo. Se a proposta de Renan fosse aprovada no formato descrito, um aumento real do mínimo — acima da inflação — não produziria necessariamente o mesmo ganho real para BPC e aposentadorias no piso.

O candidato argumenta que isso reduziria o crescimento automático das despesas e ajudaria a abrir espaço no orçamento.

Saúde e educação também entram no debate

O candidato defende rever regras automáticas para pisos de saúde e educação, preservando correção inflacionária e permitindo gasto adicional por decisão orçamentária, em vez de crescimento obrigatório ligado a determinadas receitas.

Mudanças nessas áreas envolveriam regras constitucionais e enfrentariam forte disputa política no Congresso.

Corte não reduz juros de forma automática

Renan argumenta que um ajuste fiscal forte reduziria risco, permitiria queda de juros e abriria espaço para investimento público. A relação existe na discussão econômica, mas não é mecânica: a Selic é definida pelo Banco Central considerando inflação, expectativas, atividade, câmbio e condições fiscais, entre outros fatores.

O detalhamento divulgado por Kim amplia o desenho econômico da candidatura ao explicar como a campanha pretende combinar capitalização via FGTS, mudanças previdenciárias, desindexação e ajuste fiscal. Como se trata de programa eleitoral, valores, transições e efeitos precisam ser avaliados à medida que textos legislativos e estimativas técnicas forem apresentados.

Fontes

Folha de S.Paulo / Flow News / Jovem Pan ↗

Folha de S.Paulo / C-Level — Kim Kataguiri detalha plano econômico da campanha: https://c-level.folha.uol.com.br/c-level-entrevista/2026/09/renan-santos-quer-fgts-como-poupanca-para-aposentadoria-de-trabalhadores-diz-kim-kataguiri.shtml | https://www.youtube.com/watch?v=oGK5E24zTbI | https://www.youtube.com/watch?v=bifNpN4uU6o | https://jovempan.com.br/politica/em-sabatina-da-jovem-pan-renan-santos-erra-ao-falar-sobre-cotas-e-previdencia/ | https://sbtnews.sbt.com.br/noticia/eleicoes/pobreza-e-desigualdade-veja-propostas-de-renan-na-integra