Renan Santos (Missão) detalhou de forma mais explícita a estratégia geracional de seu grupo político em uma conversa informal com Ana Hering e Arthur do Val publicada no canal de Ana no YouTube.

Ao discutir por que considera insuficiente organizar a política apenas em uma linha de esquerda a direita, Renan afirmou que prefere pensar em um corte etário. Disse que o projeto que lidera quer disputar principalmente uma geração mais nova e resumiu a ambição com a frase: “eu quero do zero aos 40”.

▶ Assista ao trecho (03:01): Renan explica o corte geracional que diz orientar o projeto do Missão

A formulação não significa que crianças e adolescentes sem idade eleitoral sejam eleitores. Pelas regras do TSE, só pode votar em 2026 quem tiver completado 16 anos até 4 de outubro; entre 16 e 17 anos, o voto é facultativo. A fala de Renan descreve um projeto cultural e geracional mais amplo, não apenas um universo de votantes.

Renan diz preferir geração a rótulo ideológico

Na conversa, Renan contrapôs dois modos de segmentar a política. Um seria ideológico — esquerda, centro ou direita. Outro, geracional.

Ele disse que escolhe a segunda lógica porque considera o projeto do Missão “autoral” de sua geração e argumentou que pessoas mais novas tenderiam a rejeitar a repetição de fórmulas políticas associadas às gerações anteriores.

A fala aprofunda uma estratégia que Renan já vinha apresentando em entrevistas: crescer primeiro entre os jovens e usar esse público como base de expansão para outras faixas etárias.

“Não quero ser uma caricatura”

Renan e Arthur também discutiram como identidades políticas antigas podem virar caricaturas. No mesmo trecho, os participantes criticaram a ideia de que uma pessoa precise se enquadrar visualmente e culturalmente em um estereótipo pronto de esquerda ou direita.

Renan afirmou que não quer ser “uma caricatura nem de esquerda, nem de direita”. A posição combina com uma tentativa recorrente da campanha de se apresentar como uma força geracional nova, mesmo quando suas propostas concretas permanecem majoritariamente associadas ao campo da direita.

Isso é uma estratégia de posicionamento, não uma mudança automática de classificação ideológica. O programa e as propostas do candidato continuam sendo o melhor critério para avaliar sua localização política.

A aposta nos jovens já vinha aparecendo

Na sabatina da Jovem Pan, Renan havia dito que eleitores mais velhos tendem a manter escolhas políticas com maior rigidez e que o Missão precisa começar pelas faixas mais novas.

No Flow News, também afirmou encontrar maior disposição para mudança entre jovens e criticou gerações mais velhas que, em sua avaliação, teriam desistido de alterar o cenário político.

A nova conversa acrescenta um detalhe importante: o corte geracional não é apenas uma tática eleitoral circunstancial, mas parte da identidade que Renan diz querer construir para o projeto político.

Arthur realmente teve desempenho melhor entre jovens em 2020

Durante a conversa, o grupo cita a campanha de Arthur do Val à Prefeitura de São Paulo em 2020 como evidência de que o projeto consegue performar melhor entre eleitores mais novos.

A direção do argumento encontra apoio em pesquisa da época. Em levantamento Datafolha realizado em 5 e 6 de outubro de 2020, Arthur tinha 3% no eleitorado total, mas chegava a 10% entre eleitores de 16 a 24 anos.

Há, porém, uma correção importante para a lembrança apresentada no vídeo. Naquele Datafolha, Arthur não estava em segundo ou terceiro entre os jovens: aparecia atrás de Celso Russomanno (35%), Guilherme Boulos (17%) e Bruno Covas (14%) nessa faixa.

O dado confirma desempenho proporcionalmente melhor entre jovens, mas não sustenta qualquer versão mais forte de que ele liderava ou ocupava necessariamente as primeiras posições do segmento naquele momento.

O eleitorado, porém, envelheceu

Dados citados pela checagem da Jovem Pan a partir do TSE mostram que eleitores com 60 anos ou mais passaram de 21,02% do eleitorado em 2022 para 23,60% em 2026.

No mesmo período, a participação de eleitores de 21 a 34 anos caiu de 28,01% para 25,85%.

Isso cria um desafio matemático para uma candidatura que escolhe os jovens como porta de entrada. Quanto maior a participação das faixas mais velhas, menos suficiente é dominar apenas o público mais novo.

A campanha de Renan tem forte presença digital e costuma alcançar audiência online superior ao percentual obtido por ele em parte das pesquisas nacionais. Esse alcance pode ajudar entre públicos conectados, mas visualizações, seguidores e reconhecimento não equivalem diretamente a intenção de voto.

Estratégia geracional, não eleitorado homogêneo

A idade pode influenciar consumo de mídia, prioridades e referências culturais, mas não transforma pessoas da mesma faixa etária em um bloco político uniforme.

O novo trecho é relevante porque explicita como Renan pensa a construção de longo prazo do Missão: menos como uma tentativa de ocupar uma posição fixa na velha régua esquerda-direita e mais como a criação de uma identidade política voltada à geração que ele considera sua base natural.

Atualização de 11 de setembro: esta página foi ampliada com a conversa publicada por Ana Hering, na qual Renan define de forma explícita o corte “zero a 40” e apresenta a dimensão geracional como parte central do projeto do Missão.

Fontes

Ana Hering / Flow News / Jovem Pan / TSE / Datafolha ↗

Ana Hering — conversa informal com Renan Santos e Arthur do Val: https://www.youtube.com/watch?v=dac0nsO5NJc

Flow News — entrevista de Renan Santos: https://www.youtube.com/watch?v=oGK5E24zTbI

Jovem Pan — sabatina de Renan Santos: https://www.youtube.com/watch?v=bifNpN4uU6o

TSE — Manual do Eleitor: https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Julho/manual-do-eleitor-jovens-se-preparam-para-participar-das-eleicoes-2026

Jovem Pan — checagem sobre cotas, Previdência e dados do eleitorado: https://jovempan.com.br/politica/em-sabatina-da-jovem-pan-renan-santos-erra-ao-falar-sobre-cotas-e-previdencia/

Folha/Datafolha — Arthur do Val tinha 10% entre 16 e 24 anos e 3% no total em outubro de 2020: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/10/arthur-volta-a-ser-mamae-falei-e-quer-engajar-antipetista-de-classe-media-em-sao-paulo.shtml