A expansão internacional da Bilibili cria uma situação rara para criadores brasileiros: uma plataforma de vídeo já gigantesca em seu mercado de origem está tentando construir audiência, parceiros e catálogo local praticamente ao mesmo tempo.

Isso naturalmente produz a sensação de “chegar cedo”.

A tese ganhou força em vídeos recentes de creators brasileiros. Em um deles, Peter Jordan argumenta que plataformas novas costumam distribuir conteúdo de forma mais generosa enquanto tentam atrair produtores e audiência — e que a entrada antecipada pode abrir uma janela de oportunidade.

A lógica faz sentido.

Mas ela precisa ser separada do hype.

Hoje, a melhor estratégia para um creator brasileiro não parece ser trocar o YouTube pela Bilibili. Parece ser testar a Bilibili com conteúdo reaproveitado e custo baixo enquanto a plataforma prova se consegue gerar audiência e receita no país.

Por que chegar cedo pode ser interessante

A Bilibili está recrutando em São Paulo um profissional cuja função inclui encontrar creators relevantes, negociar modelos de cooperação e construir relacionamentos de longo prazo.

Isso é um sinal incomum e importante.

Uma plataforma não contrata uma função dessas se estiver satisfeita em apenas disponibilizar o aplicativo e esperar que o conteúdo apareça sozinho.

Ela precisa de creators.

Para quem já produz vídeos, isso pode significar um período em que a oferta de conteúdo local é menor do que a demanda da plataforma por material brasileiro.

Historicamente, momentos assim podem favorecer testes.

O problema é que “pode” não significa “vai”.

Não existe ainda uma série pública de dados mostrando quanto um canal brasileiro recebe de alcance ao começar na versão internacional da Bilibili.

A Bilibili já permite monetização para criadores de fora da China

A oportunidade não é apenas teórica.

As regras oficiais da Bilibili preveem retirada de ganhos por criadores residentes fora da China continental.

O sistema utiliza ShellCoins como referência de ganhos e exige que o creator internacional assine um acordo com a Bilibili Singapore.

As regras consultadas pelo AVATIX News permitem solicitar retirada entre 1.000 e 50.000 ShellCoins por operação e dizem que pagamentos internacionais normalmente podem levar até 30 dias.

Há, entretanto, um detalhe que precisa entrar na conta.

A documentação informa uma taxa de serviço de 21% cobrada pela Bilibili Singapore, além de possíveis impostos e tarifas do canal de pagamento.

Ou seja: existe monetização internacional, mas isso está longe de provar que a remuneração líquida será competitiva para brasileiros.

O grande padrão de comparação continua sendo o YouTube

É aqui que a dificuldade da Bilibili fica evidente.

O YouTube afirma ter pago mais de US$ 100 bilhões a criadores, artistas e empresas de mídia nos últimos quatro anos.

Seu Programa de Parcerias reúne mais de 3 milhões de creators.

Isso não significa que todo canal ganhe bem — ou sequer consiga monetizar.

Significa que o criador sabe qual é o sistema, quais são os requisitos e que existe uma infraestrutura de publicidade global madura por trás dele.

A Bilibili terá de demonstrar algo parecido em escala internacional se quiser transformar curiosidade em trabalho recorrente de creators.

O app internacional ainda parece uma versão em construção

A própria página brasileira da Google Play mostra sinais positivos e limitações.

O aplicativo já está em português, possui dublagem por IA, tem 10 milhões+ de downloads no Android e foi atualizado em 31 de agosto.

Ao mesmo tempo, avaliações recentes reclamam de recursos ausentes, tradução irregular e limitações de interface.

Esses comentários são relatos individuais, não uma pesquisa representativa.

Mas combinam com um ponto óbvio: o YouTube passou cerca de duas décadas aperfeiçoando busca, televisão, upload, streaming, analytics, monetização e distribuição global.

A Bilibili não precisa copiar tudo isso.

Precisa, porém, oferecer produto suficientemente bom para que o creator não veja a publicação como trabalho desperdiçado.

E a dublagem por IA?

Este pode ser um dos ativos mais interessantes da expansão.

A descrição oficial da Bilibili no Google Play anuncia uma ferramenta de dublagem por IA que permite ouvir creators em outro idioma.

Para uma empresa chinesa tentando atravessar barreiras linguísticas, isso ataca diretamente um dos maiores problemas da internacionalização.

Se funcionar de forma consistente, um vídeo brasileiro pode potencialmente ganhar distribuição fora do Brasil sem que o creator precise produzir uma versão inteira em outro idioma.

Ainda é cedo para medir o quanto essa promessa se converte em alcance real.

O erro seria produzir conteúdo exclusivo agora

Imagine dois cenários.

No primeiro, um creator passa dez horas produzindo um vídeo exclusivamente para a Bilibili e recebe quase nenhuma entrega.

No segundo, publica uma adaptação de um vídeo que já estava pronto para YouTube, Shorts ou TikTok e usa o resultado como experimento.

O custo do segundo cenário é muito menor.

Por isso, enquanto a plataforma ainda está testando sua presença no Brasil, a estratégia mais racional é cross-posting.

Vídeos longos já publicados podem ser adaptados, títulos podem ser testados e formatos com afinidade histórica com a Bilibili — games, anime, tecnologia, cultura pop e conteúdo educacional — parecem candidatos naturais.

Quem deveria testar primeiro

A plataforma parece especialmente interessante para creators que já possuem:

  • biblioteca de vídeos pronta;
  • conteúdo de games, anime, tecnologia ou cultura pop;
  • formatos que não dependem de acontecimentos exclusivamente brasileiros;
  • capacidade de adaptar títulos e miniaturas rapidamente;
  • produção em escala;
  • interesse em audiência internacional.

Quem ainda leva vários dias para produzir cada vídeo provavelmente deve ser mais cauteloso.

Nesse caso, cada hora desviada do YouTube representa um custo alto.

Canal sem rosto tem uma vantagem?

No vídeo que motivou esta análise, Peter Jordan argumenta que canais sem rosto conseguem multiplicar presença entre plataformas com mais facilidade, porque o conteúdo depende menos da agenda pessoal do creator.

É uma conclusão razoável, mas não exclusiva de canais dark.

Qualquer operação com arquivos organizados, templates, roteiros reaproveitáveis e fluxo de produção eficiente consegue experimentar uma plataforma nova com menos custo.

A vantagem real está na capacidade de distribuição multiplataforma, não simplesmente em esconder o rosto.

O que observar durante 30 dias

Um teste pequeno pode responder mais do que qualquer previsão.

O creator pode publicar de 10 a 20 conteúdos que já existiam e acompanhar:

  • visualizações por vídeo;
  • velocidade das primeiras impressões;
  • retenção;
  • seguidores adquiridos;
  • países da audiência, quando disponível;
  • comentários e qualidade da comunidade;
  • disponibilidade real de monetização;
  • esforço necessário para adaptar cada publicação.

Depois disso, é possível comparar o retorno por hora investida com YouTube, TikTok e Instagram.

O maior risco: confundir expansão com sucesso garantido

A história da internet está cheia de plataformas que chegaram prometendo competir com gigantes, ofereceram distribuição inicial e depois perderam relevância.

A Bilibili possui uma vantagem enorme em relação a muitas delas: já é um negócio de grande escala.

No segundo trimestre de 2026, a companhia registrou 371 milhões de usuários ativos mensais e US$ 1,17 bilhão em receita.

Isso reduz o risco de estarmos falando de um projeto minúsculo.

Não elimina o risco de a expansão global falhar.

Então, vale a pena?

Para quem já tem conteúdo pronto: sim, vale testar.

Para abandonar YouTube, mudar toda a estratégia ou produzir exclusivamente para a Bilibili: ainda não.

A janela mais interessante neste momento é assimétrica: o creator consegue experimentar com pouco investimento enquanto a Bilibili precisa gastar tempo e dinheiro para conquistar conteúdo local.

Se a distribuição brasileira começar forte, quem testou cedo já terá histórico, seguidores e aprendizado.

Se a plataforma não decolar, o prejuízo foi limitado porque o conteúdo principal continuou vivendo nas redes que já funcionavam.

Essa é uma aposta muito diferente de “Bilibili vai destruir o YouTube”.

É uma aposta mais simples: talvez seja barato demais testar agora para justificar ignorar a plataforma completamente.

Fontes

Bilibili / YouTube / Google Play ↗

https://www.bilibili.com/blackboard/activity-cPAdpH42Vu.html

https://www.bilibili.com/blackboard/activity-5pzFeeP6wG.html

https://play.google.com/store/apps/details?hl=pt_BR&id=com.bilibili.app.in

https://br.linkedin.com/jobs/view/business-development-community-manager-at-bilibili-group-4435210417

https://www.sec.gov/Archives/edgar/data/1723690/000119312526371261/d434015dex991.htm

https://blog.youtube/intl/pt-br/inside-youtube/carta-ceo-neal-mohan-2026/

https://www.youtube.com/watch?v=dRISleuZ9uU