A estratégia internacional da Bilibili tem uma contradição interessante.
Para crescer fora da China, a empresa precisa desesperadamente de mais conteúdo.
Ao mesmo tempo, quanto mais conteúdo recebe, mais difícil fica garantir que todos os uploads respeitem direitos autorais em cada país.
Esse conflito pode se tornar um dos maiores testes da expansão global da plataforma.
A Bilibili quer ser casa de creators
Em agosto de 2026, o aplicativo internacional passou a oferecer interface em português e a empresa intensificou o recrutamento fora da China.
Em São Paulo, a Bilibili procura um profissional para desenvolver relações com creators, estúdios, parceiros e detentores de propriedade intelectual.
Isso mostra que a empresa entende um ponto básico da creator economy:
uma plataforma sem conteúdo local não constrói audiência local.
Mas conteúdo é também risco jurídico
A mesma estrutura que facilita a chegada de creators permite que usuários publiquem material de terceiros.
Na China, a Bilibili já enfrentou ações de serviços como iQiyi e Youku.
Em 2026, perdeu definitivamente um processo iniciado pela sul-coreana MBC por circulação não autorizada de seus programas.
Ao entrar em novos mercados, a empresa passa a se aproximar ainda mais de titulares globais que possuem equipes dedicadas a enforcement.
O Brasil não é uma ilha de copyright
Filmes, séries, transmissões esportivas, música e televisão possuem cadeias complexas de licenciamento.
Direitos podem ser vendidos separadamente para:
- streaming;
- televisão;
- vídeo sob demanda;
- publicidade;
- países específicos;
- idiomas específicos;
- períodos específicos.
Uma plataforma internacional não pode simplesmente assumir que algo disponível em outro território também pode ser exibido no Brasil.
“Mas está no Bilibili” não significa “é oficial”
Esse ponto será especialmente importante se o serviço crescer entre brasileiros.
A Bilibili possui filmes e séries licenciados oficialmente.
Também possui UGC.
Na interface, um usuário novo pode não compreender imediatamente a diferença entre uma página oficial do catálogo e um upload feito por uma conta qualquer.
Isso cria risco de reputação.
Se usuários começarem a enxergar a plataforma como um lugar para “assistir filme grátis”, a Bilibili pode ganhar tráfego no curto prazo e um enorme problema comercial no longo.
Estúdios não querem licenciar catálogo para uma plataforma que, ao lado da obra oficial, hospeda múltiplas cópias não autorizadas.
O caso MBC muda o cálculo
A decisão chinesa de 2026 torna mais difícil tratar o problema como exclusivamente do uploader.
Segundo relatos sobre o julgamento, o tribunal considerou que a Bilibili não adotou medidas adequadas apesar da circulação em larga escala e reconheceu responsabilidade da plataforma.
Isso cria um incentivo econômico direto para melhorar o enforcement.
Quanto maior a plataforma, mais caro pode ficar um padrão recorrente de omissão.
A empresa já está investindo em proteção
A Bilibili afirma usar IA, bancos de copyright, fingerprints, revisão humana, denúncias e ferramentas específicas para creators.
Mais de um milhão de links infratores já foram removidos por um de seus programas de proteção, segundo dados da própria companhia referentes a 2024.
O desafio agora é internacionalizar essa infraestrutura.
Identificar uma cópia é apenas metade da tarefa.
A outra metade é saber quem possui o direito em cada território e qual ação deve ser aplicada: remoção global, bloqueio regional, monetização, licenciamento ou manutenção.
Um possível choque com a estratégia de crescimento
Plataformas em expansão tendem a querer reduzir atrito para novos usuários.
A Bilibili internacional, por exemplo, simplificou cadastro e está incentivando uploads.
Mas copyright exige justamente o oposto em determinados casos: mais verificação, mais revisão, mais contratos e mais filtros.
Se os controles forem frouxos demais, cresce a pirataria.
Se forem agressivos demais, creators legítimos podem sofrer bloqueios errados.
O equilíbrio será difícil.
Para competir com o YouTube, esse detalhe importa tanto quanto IA e algoritmo
Dublagem automática por IA chama atenção.
Recomendação, português e alcance também.
Mas um concorrente global do YouTube precisa construir relações duradouras com grandes estúdios, gravadoras, ligas esportivas e empresas de mídia.
Essas empresas não avaliam apenas audiência.
Avaliam proteção de propriedade intelectual.
Por isso, o verdadeiro teste da Bilibili fora da China pode acontecer longe da tela inicial do aplicativo.
Ele estará em sistemas de fingerprint, contratos territoriais, canais de denúncia e na velocidade com que a plataforma remove aquilo que não deveria estar lá.
Fontes
https://www.sec.gov/Archives/edgar/data/1723690/000119312526157842/d91984d20f.htm
https://www.yna.co.kr/amp/view/AKR20260323061700005
https://enews.imbc.com/M/Detail/499002
https://play.google.com/store/apps/details?hl=pt_BR&id=com.bilibili.app.in