Ana Hering (Missão), candidata a deputada federal por São Paulo com o número 1400, contou em dois vídeos informais ao lado de Arthur do Val e Renan Santos como passou de espectadora do MBL a integrante do grupo e candidata pelo partido criado a partir do movimento.

O relato é relevante porque expõe, em primeira pessoa, uma trajetória política menos linear do que a identificação atual de Ana com o Missão pode sugerir. Ela diz ter crescido em uma família majoritariamente petista e ligada ao sindicalismo, ter acompanhado as manifestações que deram projeção ao MBL ainda adolescente e depois ter se afastado do grupo justamente por causa de Jair Bolsonaro.

Segundo os dados eleitorais publicados a partir do TSE, Ana Hering tem 27 anos, é advogada e teve o registro de candidatura deferido para disputar uma vaga de deputada federal por São Paulo pelo Missão.

Ana diz que se afastou do MBL em 2018 por Bolsonaro

No vídeo “Minha trajetória até o MBL”, Ana afirma que acompanhava o movimento desde as manifestações da década passada, embora não fosse militante.

Ela conta que a ruptura aconteceu em 2018, quando o MBL apoiou Bolsonaro no segundo turno contra Fernando Haddad. Ana diz que já considerava Bolsonaro um mau político e que não entendia por que o grupo apoiaria alguém que, na avaliação dela, havia passado décadas na vida pública sem produzir resultados suficientes.

▶ Vídeo (02:27): Ana relata por que se afastou do MBL em 2018

O contexto histórico é verificável. O MBL apoiou Bolsonaro no segundo turno de 2018, sobretudo como voto contra o PT. Em 2019, o UOL registrava explicitamente esse apoio ao explicar a relação posterior, já mais crítica, entre o movimento e o governo Bolsonaro.

A avaliação pessoal de Ana sobre Bolsonaro, por outro lado, é uma opinião política dela.

Família de esquerda e período de afastamento

Ana também diz ter crescido em uma família de esquerda, com parentes ligados a sindicato, e se descreve como uma espécie de “ovelha negra” política dentro de casa.

Esse trecho é um relato pessoal da candidata. O AVATIX News não verificou individualmente a filiação partidária ou atividade política de seus familiares e, por isso, não trata essas informações como dados independentes sobre terceiros.

Segundo Ana, depois de se afastar do MBL ela passou um período menos envolvida com política e chegou a se aproximar de posições mais à esquerda, embora diga que nunca tenha sido militante do PT.

O retorno veio por vídeos e debates

Ana conta que voltou a prestar atenção no grupo depois de assistir a um debate de Arthur do Val. A partir dali, passou a acompanhar vídeos e transmissões do ex-deputado e depois os conteúdos de Renan Santos.

Ela diz que revisou impressões negativas que tinha sobre o movimento e, em tom de brincadeira, afirma ter se tornado mais “Renanzete” do que fã de Arthur antes mesmo de trabalhar com eles.

O vídeo não fornece documentação independente sobre cada crítica que ela afirma ter revisto. Por isso, o ponto verificável aqui é a mudança de percepção relatada pela própria candidata, e não uma conclusão do AVATIX News de que todas as acusações antigas contra o MBL eram falsas.

Entre feminismo de esquerda e conservadorismo

Em outro vídeo publicado no mesmo canal, Ana explicou que sua identidade política também se formou pela rejeição a dois modelos que considera caricatos.

Ela disse concordar que mulheres devem ser fortes, autônomas e ter os mesmos direitos dos homens, consideradas as diferenças biológicas, mas afirmou que nunca se identificou com a estética e a linguagem que associa a setores feministas da esquerda.

Ao mesmo tempo, afirmou não se enxergar no modelo de mulher conservadora representado, em sua fala, por figuras como Michelle Bolsonaro e Cíntia Chagas.

▶ Vídeo (04:44): Ana explica por que não se identificava com os polos feminista e conservador

O uso dessas figuras como símbolos é uma construção retórica da própria candidata. Não significa que mulheres de esquerda, feministas ou conservadoras formem grupos homogêneos.

A identidade política que Ana tenta vender em 2026

Os dois vídeos ajudam a entender como Ana Hering tenta se apresentar eleitoralmente: à direita, mas sem assumir a estética bolsonarista tradicional; crítica ao feminismo de esquerda, mas sem abandonar linguagem de autonomia e igualdade de direitos para mulheres; ligada ao MBL, mas com uma trajetória que inclui afastamento justamente no momento em que o grupo apoiou Bolsonaro.

Essa combinação também dialoga com a estratégia geracional descrita por Renan Santos na mesma conversa. O candidato presidencial afirma que o projeto do Missão quer disputar principalmente pessoas mais novas e fugir de caricaturas prontas de esquerda e direita.

No caso de Ana, a própria biografia contada por ela funciona como exemplo desse discurso: uma candidata que tenta apresentar sua posição política como resultado de deslocamentos e revisões pessoais, e não como adesão permanente a um dos polos tradicionais.

Fontes

Ana Hering / TSE / UOL ↗

Ana Hering — Minha trajetória até o MBL: https://www.youtube.com/watch?v=VAG3F_QYDjc

Ana Hering — conversa sobre identidade política e mulheres: https://www.youtube.com/watch?v=dac0nsO5NJc

Partido Missão — lista de candidatos em São Paulo: https://candidatos.missao.org.br/?uf=SP

Nexo — perfil eleitoral de Ana Hering com dados do TSE: https://candidatos.nexojornal.com.br/2026/sp/ana-hering-250002546619/

UOL — MBL apoiou Bolsonaro no segundo turno de 2018: https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2019/05/17/mbl-protestos-bolsonaro-educacao-kim-kataguiri-olavo-de-carvalho.htm