O custo de vida continua sendo um dos pontos mais sensíveis para a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na reta final do primeiro turno. Reportagem da Reuters publicada neste sábado, 26 de setembro, mostra que a melhora recente de indicadores como inflação e emprego ainda convive com uma percepção negativa da economia entre parte relevante do eleitorado.
Segundo a reportagem, uma pesquisa Quaest publicada em setembro apontou que quase metade dos brasileiros considera que a economia piorou no último ano, enquanto 19% dizem que houve melhora. A Reuters relaciona essa diferença de percepção principalmente ao efeito acumulado dos preços dos alimentos, ao endividamento das famílias e ao custo do crédito.
Indicadores melhoram, mas a conta ainda pesa
O cenário descrito pela Reuters é de contraste. Lula tem usado na campanha a baixa taxa de desemprego, a redução recente da inflação e indicadores de queda da desigualdade para defender que a economia avançou. Ao mesmo tempo, economistas ouvidos pelo veículo observam que a experiência cotidiana das famílias incorpora vários anos de alta acumulada dos preços — especialmente dos alimentos.
A inflação de alimentos perdeu força recentemente e chegou a registrar queda em meses do meio do ano, mas isso não devolve automaticamente os preços aos níveis anteriores. Para o consumidor, desacelerar a inflação significa que os preços passam a subir mais devagar — ou recuam em determinados períodos — e não que toda a alta acumulada desaparece.
Outro componente é a dívida. A Reuters cita dados do Banco Central segundo os quais o serviço da dívida das famílias, excluindo financiamento imobiliário, chegou a 26,6% da renda em junho, recorde da série mencionada pela reportagem. O texto também destaca o impacto dos juros elevados sobre o crédito ao consumidor.
Tema virou arma eleitoral
Flávio Bolsonaro (PL) colocou o preço dos alimentos e a perda de poder de compra no centro de sua campanha contra Lula. Segundo a Reuters, o senador costuma comparar preços atuais de supermercado com os observados durante o governo de Jair Bolsonaro.
A campanha de Lula reage contestando essas comparações e criou uma página chamada “Mercado da Mentira”. Também acionou o Tribunal Superior Eleitoral contra alegações sobre preços feitas pela campanha adversária, conforme registra a Reuters.
É importante separar os dois planos: a disputa política sobre quem é responsável pelo custo de vida e os dados econômicos objetivos. A desaceleração recente da inflação é mensurável, assim como o mercado de trabalho mais forte; a percepção de que o orçamento continua apertado também aparece nas pesquisas citadas pela reportagem.
Medidas na reta final
Nas últimas semanas antes do primeiro turno, Lula anunciou medidas com impacto direto na renda e no orçamento das famílias, incluindo aumento de 15% no Bolsa Família e a proibição das operações de apostas on-line a partir de 6 de outubro. A Reuters observa, porém, que pesquisas ainda não indicavam uma mudança clara de percepção econômica provocada por essas medidas no momento da publicação.
O custo de vida ganha peso adicional porque Lula e Flávio chegam à reta final em uma disputa competitiva. A economia, portanto, não entra apenas como debate sobre crescimento ou inflação: ela se transforma em uma disputa sobre quanto da melhora dos indicadores chega efetivamente ao bolso do eleitor.
A fotografia usada na capa é de Ricardo Stuckert, publicada por Lula Oficial e disponibilizada no Wikimedia Commons sob licença CC BY-SA 4.0.
