O avanço dos bancos digitais transformou o acesso ao crédito no Brasil, mas uma combinação de endividamento recorde, juros elevados e aumento da inadimplência está colocando esse modelo sob escrutínio justamente na reta final da eleição presidencial de 2026.
Uma reportagem publicada pela Reuters nesta sexta-feira (18) aponta que 82% das famílias brasileiras estão endividadas e cerca de um terço está com pagamentos em atraso, segundo dados da Confederação Nacional do Comércio (CNC). O cenário ajuda a explicar por que custo de vida, crédito e renegociação de dívidas ganharam espaço na campanha eleitoral.
Dados oficiais: o Banco Central mantém séries públicas de inadimplência no cartão de crédito, considerando operações com atraso superior a 90 dias.
Fintechs ampliaram o acesso — e também a exposição ao crédito caro
O crescimento de fintechs e bancos digitais levou serviços financeiros a milhões de brasileiros que antes tinham pouco acesso ao sistema bancário. Cartões sem anuidade, abertura de conta pelo celular e concessão rápida de limites reduziram barreiras e aumentaram a competição com os bancos tradicionais.
A mesma expansão, porém, ocorreu em um país que mantém custos de crédito entre os mais altos do mundo. A Reuters relata casos de consumidores de baixa renda que receberam aumentos expressivos de limite e acabaram comprometendo parcela elevada do salário com pagamentos de dívidas.
Um levantamento da Equifax BoaVista citado pela agência mostrou que a inadimplência entre usuários de cartão de neobancos chegou a 20,31% em 2025. O número não significa que um quinto de todos os clientes de fintechs esteja inadimplente hoje: trata-se de uma medição específica da base analisada no estudo e do período de 2025.
Nubank cresce enquanto inadimplência preocupa
O Nubank, maior banco digital da América Latina, tornou-se um dos símbolos dessa transformação. A companhia encerrou o segundo trimestre com quase 139 milhões de clientes no Brasil, México e Colômbia e registrou lucro líquido trimestral acima de US$ 1 bilhão pela primeira vez.
Ao mesmo tempo, a inadimplência acima de 90 dias da instituição chegou a 6,9% em junho, segundo dados divulgados pela empresa e repercutidos pelo mercado. O banco sustenta que seus modelos de concessão de crédito avaliam risco continuamente e que a expansão ocorre de maneira responsável.
A pressão não se restringe a uma única empresa. Mercado Pago, C6, PagBank e outras instituições digitais também expandiram crédito em um mercado no qual consumidores passaram a distribuir sua vida financeira entre várias plataformas.
Banco Central já prepara medidas
O Banco Central reconheceu no início de setembro que o endividamento das famílias permanece em nível historicamente alto e que o comprometimento de renda atingiu o maior patamar da série histórica.
Na ata do Comitê de Estabilidade Financeira (Comef), a autoridade monetária destacou a participação relevante de modalidades mais caras — especialmente cartão de crédito e empréstimos pessoais sem garantia — e afirmou preparar medidas para exigir reconhecimento mais rápido dos riscos e acumulação gradual de capital pelas instituições.
A discussão inclui possíveis limites prudenciais para os bancos antes de uma eventual regra sobre quanto da renda das famílias pode ser comprometido com dívidas. Nenhuma dessas medidas, porém, deve ser tratada como já implementada.
Endividamento virou tema eleitoral
O problema também entrou na campanha. O governo federal voltou a discutir programas de renegociação, enquanto candidatos apresentam propostas para crédito, juros e alívio das dívidas das famílias.
Esse contexto exige separar duas coisas: a expansão das fintechs aumentou inclusão financeira e concorrência, mas isso não elimina o risco associado à oferta de crédito caro para consumidores com pouca margem no orçamento. Da mesma forma, o aumento do endividamento brasileiro não pode ser atribuído exclusivamente aos bancos digitais — juros, inflação acumulada, renda, crédito tradicional e comportamento de consumo também influenciam o quadro.
Com mais de oito em cada dez famílias carregando algum tipo de dívida, a sustentabilidade do crédito ao consumidor deixou de ser apenas uma discussão do setor financeiro e passou a ocupar também o centro do debate econômico e eleitoral.
Fontes
Reuters — reportagem de 18/09/2026 sobre endividamento e expansão do crédito digital no Brasil: https://www.reuters.com/world/americas/some-brazilian-voters-are-feeling-burned-by-fintech-revolution-2026-09-18/
Banco Central — ata do Comef e medidas sobre crédito oneroso, reproduzidas pela Reuters em 02/09/2026: https://economia.uol.com.br/noticias/reuters/2026/09/02/bc-sinaliza-medidas-de-capital-conforme-credito-ao-consumidor-impulsiona-divida.amp.htm
Banco Central — dados abertos sobre inadimplência de cartão de crédito: https://dadosabertos.bcb.gov.br/dataset/21129-inadimplencia-da-carteira-de-credito-com-recursos-livres---pessoas-fisicas---cartao-de-credit
