O Banco Central (BC) voltou a elevar o tom de cautela sobre o crédito às famílias. A ata mais recente do Comitê de Estabilidade Financeira (Comef), divulgada nesta quarta-feira, 2 de setembro, aponta que o endividamento e o comprometimento de renda das famílias estão em níveis historicamente elevados e que a composição da dívida passou a concentrar uma parcela maior em modalidades mais caras.
O diagnóstico reforça a preocupação do BC com segmentos como cartão de crédito e crédito ao consumidor sem garantia, justamente num momento em que a inadimplência permanece alta e instituições financeiras seguem expandindo algumas dessas carteiras.
Segundo o Comitê, o quadro não representa, neste momento, uma crise de solvência do sistema bancário. O próprio BC afirma que as instituições mantêm níveis adequados de capital, liquidez e provisões para perdas. A preocupação está na capacidade de pagamento de famílias e empresas e na possibilidade de deterioração adicional caso o crédito mais oneroso continue ganhando espaço.
O que o Banco Central está vendo
O Comef destaca uma combinação de fatores que pressiona o orçamento das famílias:
- endividamento elevado;
- comprometimento de renda em patamar historicamente alto;
- participação crescente de modalidades de crédito de custo maior;
- inadimplência ainda pressionada;
- juros em nível restritivo para a atividade econômica.
Dados divulgados pelo próprio Banco Central no fim de agosto mostraram que a inadimplência no crédito livre chegou a 6,4% em julho, enquanto entre pessoas físicas o índice alcançou 7,8%.
Esses números não significam que 7,8% de todos os brasileiros estejam inadimplentes. O indicador mede a parcela da carteira de crédito livre das pessoas físicas que se encontra em atraso dentro dos critérios estatísticos do BC.
Cartão de crédito está no centro da preocupação
O Banco Central tem dado atenção especial ao crescimento de modalidades de maior custo, principalmente cartões de crédito e empréstimos pessoais sem garantia.
A preocupação acontece justamente quando bancos e fintechs disputam espaço nesses segmentos. O Mercado Pago, por exemplo, informou ter emitido 2,6 milhões de cartões de crédito no segundo trimestre de 2026, ante 1,6 milhão no mesmo período do ano anterior.
Segundo dados da companhia citados pela Reuters, a inadimplência entre 15 e 90 dias na carteira de cartões ficou em 4,6%, enquanto financiamentos com mais de 90 dias de atraso alcançaram 18,7% em toda a carteira de crédito da empresa. O Mercado Pago afirma que acompanha a qualidade das concessões e que poderá ajustar o ritmo de crescimento caso necessário.
A expansão de uma empresa específica não é apresentada pelo Banco Central como causa isolada do problema. O alerta do regulador é mais amplo e envolve o comportamento do mercado de crédito como um todo.
BC prepara novas medidas
O Comef já havia informado, após sua reunião de agosto, que o Banco Central prepara medidas para mitigar riscos associados às modalidades mais onerosas de crédito.
A ata divulgada nesta quarta reforça que o tema continua no radar da autoridade monetária. Até o momento, porém, o BC não anunciou um pacote completo de novas regras nem detalhou todas as medidas que poderão ser adotadas.
Por isso, ainda não é possível afirmar que haverá restrição direta à concessão de cartões ou empréstimos. O que está confirmado é que o regulador considera necessário aumentar a cautela e acompanha de perto a evolução das carteiras mais arriscadas.
Sistema financeiro segue resiliente, diz o Comef
Apesar do alerta, o Comitê mantém a avaliação de que o Sistema Financeiro Nacional está preparado para enfrentar a materialização do risco de crédito.
Os bancos continuam, segundo o BC, com capital e liquidez acima dos requisitos prudenciais e com provisões consideradas adequadas para absorver perdas esperadas.
Essa distinção é importante: a ata aponta risco crescente para famílias e empresas, mas não descreve uma situação de colapso ou instabilidade imediata do sistema bancário.
O Comef decidiu manter em 0% o Adicional Contracíclico de Capital Principal do Brasil, instrumento macroprudencial que poderia obrigar os bancos a formar uma reserva adicional de capital em períodos de expansão excessiva do crédito.
Por que a pauta importa agora
O alerta chega a pouco mais de um mês das Eleições 2026 e em um momento de desaceleração da economia brasileira. O PIB cresceu 0,5% no segundo trimestre, abaixo do ritmo observado nos primeiros três meses do ano, enquanto o consumo das famílias recuou no período.
Crédito caro, comprometimento de renda e inadimplência ajudam a explicar por que o consumo pode perder força mesmo com um mercado de trabalho ainda relativamente aquecido.
A combinação também aumenta a importância das próximas decisões do Banco Central sobre juros e das eventuais medidas regulatórias voltadas ao cartão de crédito e aos empréstimos sem garantia.
Fontes
- Banco Central do Brasil — Comitê de Estabilidade Financeira (Comef) e dados oficiais de crédito do Sistema Financeiro Nacional.
- Reuters — cobertura sobre expansão do Mercado Pago no crédito brasileiro e preocupação regulatória com o endividamento das famílias.
- Folha de S.Paulo — cobertura da ata do Comef divulgada em 2 de setembro de 2026.
- Wikimedia Commons / Agência Senado — fotografia da sede do Banco Central, de Jonas Pereira, licenciada em CC BY 2.0.
Fontes
https://www.bcb.gov.br/estabilidadefinanceira/comef
https://www.bcb.gov.br/estatisticas/estatisticasmonetariascredito
